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domingo, 5 de dezembro de 2010

Fluminis

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Sempre sentava à beira do rio na parte da tarde, até começar a escurecer ou os mosquitos chegarem. Naquele dia, não foi diferente. Ou foi.
Dentro d'água havia algo como uma água-viva, mas não era mar, era rio. Algo como uma bola de cristal, mas boiava. Transparente e leve.
Meteu a mão por baixo, meio a medo. E venho trazendo para cima, devagar.
O sol bateu em cheio. E brilhou, em mil cores de cristal. Mas redonda.
Não sabia o motivo, mas a pele dos braços estava arrepiada. E os cabelos também.
E maravilhada viu que a luz não caía do sol sobre ela, mas subia daquilo para o sol. Ia subindo por um caminho aéreo, como milhões de partículas – douradas, azuis, esverdeadas, levemente rosas, brancas, transparentes? – e não via mais o seu começo. Perdido no espaço, os olhos ofuscados pela claridade da luz do sol ou daquilo.
Deslumbrada e, ao mesmo tempo, com muito susto, foi colocando a água-viva, bola de cristal, redondeza brilhante e leve – percebeu, sem consciência, que afinal não tinha peso – no chão. E sua mão ainda ficou cheia das partículas da estranha purpurina – que outro nome dar àquilo?
Mas a coisa estranha não baixou ao chão. Ficou meio levitando sobre o ar. E, em volta, nada se via bem, como em um dia de verão intenso, o clarão do sol apaga todas as formas.
Ela enxergou, porém, no brilho que subia uma forma de escada. E levantou o pé, toda indecisa, levada, entretanto, por um desejo sem nome. E foi, de degrau dourado e azul e esverdeado e levemente rosa e branco e transparente em degrau dourado e azul e esverdeado e levemente rosa e branco e transparente, subindo, já, ela mesma, água-viva, bola de cristal.
O pescador que chegou logo depois não viu nada.
(Conto registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)


Convido o visitante deste blogue a ir a Poema Vivo (por aqui) e a Literatura em vida 2 (o caminho é esse).

Estou ainda em:
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Debates Culturais, onde passo, agora a publicar alguns artigos, bastando um clique, na lista "Colunistas", à direita, em Eliane Lima (link). 2.
Recanto das Letras (aqui).
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domingo, 28 de novembro de 2010

Terceiro olho

Enquanto não recebo meus novos contos registrados, trago de volta textos do princípio do blogue e ainda pouco lidos.

Eliane F.C.Lima
(Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

A família sempre a achou meio desequilibrada. Tinha mania com a morte. Um dia, acordava e dava uma faxina nos armários, jogava um monte de coisas fora, "para não dar trabalho, quando morresse." Algumas vezes, teve de comprar de novo.
Com muito jeito, um amigo querido e diplomático conseguiu que ela procurasse um psicólogo.
Foi, a princípio, um pouco desconfiada. Depois adorou. Gostava do papo bom, sem compromisso. Conversava, desabafava, pagava e ia embora.
Convenceu-se, claro, de que a gente tem de se preparar para a vida. Comprou sofás novos, um armário grande para o quarto, trocou as cortinas, o fogão e a geladeira.
Morreu atropelada um mês depois, num lindo dia de sol, céu azul, a vida explodindo em todas as suas formas.
(Registrado no Escritório de Direitos Autorais, RJ, como todos os textos aqui postados).

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domingo, 21 de novembro de 2010

A cor do tempo

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Arrumando a prateleira de cima do enorme armário para fazer lugar para o enxoval da filha noiva, topou com uma caixa de madeira dos tempos de meninota, lá pelos vinte anos. Lá dentro, junto com dúzias de papéis, retratos, clipes e não sei mais o quê, um envelope amarelado.
Antes de abrir, começou a lembrar. Havia tido um relacionamento firme, na adolescência, coisa de muitos anos, quase noiva. Adorava o moço, tinha uma paixão enorme e desejava se casar e passar sua vida com ele. Não o ter a seu lado não passava por sua cabeça loucamente enamorada.
Um dia, o namorado, que sempre parecera fiel e sério, começou a mudar. Pediu para desmancharem o compromisso. Ela não entendeu logo, não acreditou, mas, finalmente, começou a chorar muito, queria saber o motivo. Ele andou falando em liberdade.
Ficou doente, emagreceu muito. Quando ele soube, apareceu correndo, muitos abraços e beijos, pedidos de perdão. Não adiantava, era a ela que ele amava.
O namoro correu nos trilhos mais seis meses. De novo, ele queria escapulir. Dizia que ia casar com ela, certamente, mas precisava, antes, conhecer pessoas novas, para estar firme, quando dissesse “sim”. Nova doença, novas voltas.
Até que recebeu a carta. O rompimento era definitivo. Não adiantava. Ele pretendia cumprir o que tinha determinado. Para se assegurar disso, estava se mudando para a casa do padrinho, um bairro distante e desconhecido dela. Que ela não o procurasse. Era o fim.
Magoada, para a garota o mundo tinha desabado. Não conseguia estudar direito, comer, ver televisão, nem ler, ela que adorava livros. Viveu como morta-viva. Muitos meses, atraída por coisa nenhuma. Lia a carta muitas vezes e chorava outras tantas. Guardou-a, certa de que o amor, como a carta seria testemunha, era para sempre.
Entretanto, como o tempo impera e a pouca idade ajuda, as coisas foram se ajeitando. Os anos se passaram. Namorou diversas vezes, casou, divorciou e agora estava ali, já cinquentona, arrumando o armário.
Abriu o envelope e a carta. Leu com rapidez. E caiu na gargalhada, por pensar que aquilo lhe causava tanta emoção, agora, quanto o manual para se ligar o aparelho de DVD, que tinha comprado há duas emanas. Como é que podia! Era a mesma grafia, eram as mesmas palavras. No entanto parecia que haveria um espírito, que se apossa de um texto em uma determinada época, e que tinha se evadido.
Olhos postos no papel já cansado, mudando de cor, entendeu que o fugitivo era o sentimento antigo, escritor cativante e talentoso, que escrevia, ele, sim, com suas emoções, as palavras de outro. O que havia desaparecido, e para sempre, era a amarelecida e irrecuperável menina do passado.

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domingo, 14 de novembro de 2010

Transcendência

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

-Me passe aí a batata frita, Honey.
A moça morreu de raiva daquele inglês idiota e fora de hora. Cara bobo! Detestava homem ridículo!
Cada vez que se dirigia a ela, lá vinha outro “Baby”. Ela fingia que não tinha ouvido no meio da balbúrdia dos amigos, todos cheios de animação e chope. No terceiro “Dear”, levantou-se e foi ao banheiro.
Lavando as mãos, ia ponderando: não entendia como o pessoal aguentava aquele cara. Seria amigo de quem? E todos falavam com ele, com consideração, bem que via. Aquilo era um mistério. O tal era um bobalhão, vocabulário de conquistador barato e antigo.
Quando voltou, sentou-se em outro lugar bem longe dele. Solução perfeita.
Num momento, porém, em que voltou a olhar para aquela ponta da mesa, reparou que o rapaz estava meio ausente, olhos no ar. Em seguida, procurou um guardanapo de papel, meio aflito, tirou uma caneta do bolso e pôs-se a escrever. Leu para si, consertou alguma coisa e mostrou, finalmente, para a garota do lado. Ela leu, sorriu em êxtase, jogou para ele uns olhos enormes e acenou para todos os lados, pedindo silêncio. E conseguiu, sem o menor esforço, como se todos esperassem por aquilo.
E Vivinha – era o apelido da primeira e entediada moça – ouviu o poema mais milagroso e ousado e perfeito de sua vida, enquanto se levantava, sonâmbula, e ia caminhando, desejando uma cadeira vaga em frente ao poeta.



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sábado, 6 de novembro de 2010

O filho do lobisomem

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Havia um grande boato sobre um lobisomem, rondando, à noite. Um disse me disse, um viu aqui, o outro, acolá, ferrolhos na porta, mal escurecia, mesas ajudando a trancar.

Uma noite, um deu um tiro no breu, duas botucas vermelhas, olhando, dizia. O bicho sumiu para sempre.
Nessa mesma noite, sem mais nem menos, o pai de Honório, depois que todos dormiram, pegou suas roupas e se foi, sem acordar a mulher. Já andava falando em cidade grande há algum tempo.
O povo juntou tudo e garantiu que ele era o lobisomem morto, por mais que a mulher mostrasse as roupas sumidas.
Honório herdou o destino. Meio sorumbático desde menino pela saudade do pai, as pessoas fugiam dele. “Andar de noite, nem pensar”, implorava a mãe. Um vivente corre menos perigo em uma megalópole do que em estúpido lugarejo do interior.
Não namorava, não dançava em festas. Se chegasse à quermesse da igreja com a mãe, o pessoal ia arredando, mudando de barraca. O pobre, sem jeito, desistia e ia embora.
Até que chegou ao local uma mulher, cabelos até os ombros, alguns fios brancos. Pensãozinha no banco, muito sisuda e viúva, também do interior, não dava trela a vizinho, ciosa de sua reputação e da língua alheia. Vivia trancada em casa.
Mas falaram... e não foi de sua honradez. As conversas eram agora sobre uma bruxa que havia na cidade: ela.
O destino, porém, que não quer saber de mitos folclóricos, levou Honório para capinar o terreno de Alzira – a feiticeira –, sem emprego fixo, o coitado, por pura rejeição de todos. E trocou telhas e pintou a casa e acabaram se amando.
No casamento, a mãe dele, madrinha, uns poucos primos e primas de outra cidade. E o padre, muito aliviado e abençoando o casal.
A cidade, contudo, ainda tinha munição: o assunto então era a dúvida sobre que tipo de tinhoso iria nascer dos dois.



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domingo, 24 de outubro de 2010

Vida cara

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Sentada na cama, as tralhas ensacadas. Lágrimas, não há mais. O rosto inchado, apenas observa em volta. Tarefa simples: um armário de duas portas, dentro do cubículo. Calor insuportável no verão; umidade entrando nos ossos no inverno.
Tinha criado a filha com muito esforço, solteira, ingênua que fora. Nunca se queixou. A menina enchia-lhe a vida. Pobre, muita faxina tinha alimentado suas bocas, pago seu quartinho, a roupa pouca, os livros da pequena. Estudo reduzido, mas muita honradez ensinada pela mãe.
Não tinha podido garantir sua velhice, contudo. Sobrava dinheiro para isso? A mocinha casara cedo, felizmente. Marido era um homem honesto, trabalhador. Nada faltava em casa. Mas sempre renegara a herança da mulher: a mãe.
Naqueles anos todos, ela, “a velha”, como ele dizia, sem o menor acanhamento, tinha feito tudo para agradar ao genro: lavava as roupas dele, passava com carinho para ver se merecia ao menos consideração. Nada. O homem dizia que aquilo nem correspondia à parte do feijão comido. E o resto? Quarto – quarto? –, luz, água e tudo o mais? Que sina a dele ter de trabalhar o dobro para sustentar boca adicional!
A filha, muito submissa, reclamava no quarto, à noite. As vozes se alteravam. A senhora se encolhia toda na cama.
No dia seguinte, a própria mãe abraçava a outra, ambas lacrimosas, e aconselhava que não fizesse aquilo, imagine, atrapalhar sua felicidade. Os homens eram assim mesmo... e onde iria achar outro tão bom, cumpridor de seus deveres? A moça tentava acreditar.
Agora ele tinha decidido e arranjado tudo. Descoberta uma prima dela, velha também e doente, no interior, tão longe, despachava a sogra para lá.
Saindo pela boca, já, a saudade de sua menina. Mas conformava-se, pensando que libertava a filha para ser feliz. Fosse o que fosse, nunca mais a moça engoliria aqueles desaforos e, afinal – deu um suspiro fundo –, a prima era uma pessoa boa e pacata.
Um “Mãe, tá na hora”, resgatou-a dos devaneios. Levantou-se, condenado à morte, convocado por guardas e padre que lhe batem à porta.

Convido meus leitores a meu blogue Literatura em vida 2 (link) e Poema Vivo (link). Estou ainda em Debates Culturais (link), onde passo, agora a publicar alguns artigos, bastando um clique, na lista "Colunistas", à direita, em Eliane Lima. Recomendo ainda, nesse mesmo endereço, a excelente Cintia Barreto, além de todos os outros.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Invencível batalha

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Intrépido era o adjetivo que classificava aquele homem. Nascido na Idade Média, seria cavaleiro heroico de algum rei conquistador.
Tinha nascido, porém, no século XX, vida de cidade moderna e grande.
Defrontava-se, mesmo assim, com muitas batalhas, principalmente as sociais. Talvez até mais acirradas. Não se via o inimigo, quando era o próprio Estado, por exemplo, ferindo seus direitos. Mas não se intimidava, procurando as vias legais ou levando seus concidadãos para as ruas, se necessário. Enfrentou a polícia, seguidamente, braço armado do stablishment para manter-se stablishment. Era um corajoso líder.
E até na vida pessoal. Não ficava quieto, se o síndico do prédio ou algum vizinho, ou qualquer um, seja dita a verdade, lhe faltasse com a devida consideração. Nunca levou desaforo para casa. Direito era direito.
Não que fosse um sujeito de perder as estribeiras, afeito a brigas. Não. Era até muito ponderado, tentando fazer o outro entender o erro cometido. Mas até um limite. Daí para a frente, agia conforme o preciso, embora sem perder as rédeas de seus atos.
Naquelas férias, meio cansado da lide urbana, tinha ido para a casa de uns amigos, localidade rural, mato para todo o lado, pouca gente e muito silêncio. Ideal para um recompor-se, beber vinho à noite, conversar muito, dormir cedo e acordar mais cedo ainda, cheiro de mato molhado de sereno, entrando pelas narinas. Surpreender o sol saindo de sua cama.
Boca ainda cheirando a café com leite e bolo de milho, resolveu passear pelos matos.
E foi andando, descobrindo pequenas trilhas feitas por outros pés curiosos, florezinhas sem pedigree, mas com muitas cores e graças, juntinho ao rosto.
Até que, de repente, a vegetação cerrada abriu e o caminhozinho ladeou uma várzea não imaginada. E viu o único adversário que temia nessa vida: um boi. Aliás, vários deles, amontoados, pastando, sua boca mole para lá e para cá. E seus chifres.
Um deles o olhou tão surpreendido quanto o homem. Continuou, no entanto, seu processo de movimentar o queixo, sem perdê-lo de vista. Ele fez o mesmo, por sua vez.
Estando aqueles a distância, reuniu toda a sua coragem e continuou pela trilha, o olho firme, porém, para o boi.
Dez metros adiante, quando volta a cabeça, finalmente, para a frente, todo o pelo que tinha no corpo se eriçou: pela mesma minúscula vereda, um boi atrasado vinha trotando.
Sem ter onde se esconder, puro instinto, descarga de adrenalina enchendo suas artérias, virou-se de costas e voltou, caminhando o mais depressa que podia, sem correr, para não estimular o terrível animal a fazer o mesmo. Em nenhum momento olhou para trás, cuidado para não desafiar o opositor.
Só parou na segurança do portãozinho familiar e amigo, muito tempo depois, vista escura, pernas bambas. Por sorte, naqueles ermos não tinha topado com vivalma. Mesmo a pessoa mais heroica sempre encontra um desafeto impossível de enfrentar.



domingo, 10 de outubro de 2010

Parceria certa

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Tinha um velho sonho: escrever, pelo menos um conto. Quando menina, fazia belos textos, muito elogiados pelos professores.
O destino, brincalhão, no entanto, tinha trançado outros planos. Muita coisa, muita coisa mesmo tinha acontecido. Se fosse examinar sua vida, veria que a agulha do destino tinha ido de uma ponta a outra, e voltado para a primeira posição, e andado de novo para o outro extremo, e para lá e para cá. Mas ia beirando os sessenta e nunca tinha escrito conto algum.
Há uns três anos, o ímpeto da infância retornou. Pegava uma folha, ficava horas pensando e nada. Já tinha começado até uns rabiscos, mas ficava só nisso. Lia, embolava e ia fazer outra coisa. Frustrada.
E cada vez a sensação aumentava. Parecia que havia alguém crescendo dentro dela. Grávida de um conto: uma narrativa à espreita.
Apanhados papel e caneta, aquele ser interno se encolhia, se amedrontava. Mas era algo forte, um delírio. Que sumia, entre a mente e a folha, pálida, sobre a mesa, qual adolescente esposa medieval, tomada pela lascívia, deitada em confortável alcova com o esposo, branco e velho marquês impotente.
Um dia resolveu relatar exatamente aquele sofrimento. Sem grandes expectativas, deixando a mão deslizar, escreveu: “Tenho um velho sonho: escrever, pelo menos um conto. Quando menina, fazia belos textos, muito elogiados pelos professores. O destino, brincalhão, no entanto, trançou outros planos...”.
Encheu três folhas nervosas, sem interrupção, o esposo substituído, agora, sobre a palha, por um jovem cavalariço moreno.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A chave do destino

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Sem emprego, lugar sem recurso, capinava terrenos por encomenda, não fosse morrer de fome.
Num desses, bem cedinho, a enxada bateu em algo duro. Uma pedra? Viu uma ponta acinzentada. Curioso, desencavou. Dentro duma caixa de ferro bastante enferrujada, uma chave esquisita.
Deu tratos à bola: devia ser da porta da casa. Precaução: o dono, se perdesse a chave de uso, garantia entrar, mas com cautela. Casa? Que casa? Terreno baldio, vendido pela primeira vez. Pelo aspecto da caixa, estaria ali há mais de cinquenta anos. Sacudiu a cabeça, sem entender. Deixou a caixa no mesmo lugar, terra em cima.
Continuou sua labuta. Suor por todo o lado. Mas o trabalho ia avançando.
Depois do almoço, corpo sentado sobre pedra grande, marmita comida, lembrou recomendação do dono: apartar a pedra para um canto do terreno. Ia descansar um pouco, porém.
Pensou na ingratidão da vida. Ia para os quarenta. Músculos fortes de tanta capina. Mas inteligente. Adolescente, muitos sonhos. Ia ganhar o mundo. Ganhou aquela enxada, garantia de comida na mesa. Acariciou sua “bichinha”, como chamava.
Espantou a filosofia e a tristeza. Reuniu toda a valentia. Primeiro arrastão, a pesada nem se mexeu. Não saía. Depois de muitas tentativas, já enfurecido. Mexia com sua honra de homem.
Viu que estava travada por uma ponta. Mudou a rota do empurrão e ela andou com facilidade. Então era isso, continuava forte.
Com a enxada, cavucou em volta da ponta. Outro objeto de ferro. Com uma série de golpes, foi afundando o buraco: um cofre, meio metro de comprimento.
Então seu cérebro se iluminou: a chave! Tremendo, concentrou-se todo para saber onde tinha enterrado de novo.
Passou grande parte da tarde, escavando, aflito, coração aos pulos. E se o dono viesse conferir o trabalho? Era dono do terreno, não do cofre. Finalmente achou.
Já anoitecendo, terreno todo limpo, buracos tampados, saiu, empurrando seu carrinho de mão, chave bem guardada no bolso, cofre coberto com sacos velhos voados de longe, enxada cuidadosa por cima.
Guardado tudo em casa, foi receber seu pagamento do trabalho. Era o que faria um homem sem cofre.

Aguardo a todos em Literatura em vida 2 (link) e Poema Vivo (link).

domingo, 26 de setembro de 2010

Fraternidade

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Muitas janelas abertas, os curiosos, mas consternados vizinhos, observavam o caixão que saía. Só, Matilde, decidida, embora de olhos vermelhos, comandava tudo. Fechou a porta e entrou na frente do rabecão. O carro saiu devagar, apesar de ninguém seguir atrás.
Sentada no banco do veículo, silenciosa, tentava pensar no que estava acontecendo. Há quarenta anos era empregada de Lurdes. Empregada nada, eram amigas. Sabia tudo sobre a vida da outra e a outra, sobre a dela. Eram mais do que irmãs. Seu corpo todo doía agora, refletindo a perda da companheira, anunciada, mas, de qualquer modo, uma surpresa. Estava atônita, perdida, apesar de ter feito tudo o que tinha de fazer, sua responsabilidade de anos. Ainda não acreditava. Como seria na volta, quando abrisse a porta?
Lurdes sempre ensinava, instruía. Aos poucos, Matilde foi ficando mais atilada. A doente tinha planejado tudo, deixadas as providências tomadas. Havia um dinheirinho, aplicado, para o enterro e para que ela, a empregada, pudesse viver sem largueza, embora dignamente. Em termos práticos, estava garantida. Até a casa seria sua, passada em testamento. Aquela velha casa, simples e querida, era uma versão da amiga que ia agora morar em lugar diferente. Sem ela – e a mulher enxugou as lágrimas sob os óculos. Nenhum bem, entretanto, encheria o palacete vazio, cheio de ecos e cantos escuros, que era, agora, o seu coração.
Refletia sobre o que ainda ia enfrentar: separar-se do único ente querido que tinha, que lá ficaria. E voltar para casa e não ver a outra, ouvir sua voz já bem fraca nos últimos dias, porém ainda alegre e positiva. Lurdes repetia: “Você não fica sozinha, Matilde. Esta casa está repleta de anjos. Meus guias – são muitos, vejo todos eles agora, me sorrindo – vão se dividir e ficam alguns com você. Olhe só, eles concordaram. Vão ficar alguns, porque nós já somos uma só. E há os seus também. Uns bem bonitos.”
E a boa mulher, sacolejando no carro, ia se consolando, relembrando tudo. Afinal, o grande palacete de seu peito não ia ficar tão vazio, tinha mesmo de arranjar espaço para tanta gente. A boca quase sorriu, enquanto os olhos iam transbordando lágrimas.

Espero você em Poema Vivo (este é o caminho) e em Literatura em vida 2 para ler minha nova postagem (aqui).

domingo, 19 de setembro de 2010

Ser primitivo

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Espreme-se no vão do viaduto, trêmulo de frio, envolto no fino pano que encontrou no lixo.
Olha a água que escorre do concreto à sua frente. Uma poça incerta ameaça subir o pequeno degrau que a separa dele. Torce para que a chuva pare antes. O papelão onde está sentado já parece úmido. Ou está só frio?
Agora uma garoa leve, mas persistente e incômoda, peneira a paisagem, perturbada apenas por uma tênue claridade difusa, que deve vir de um poste bem distante. Tudo está muito escuro.
Os olhos, doídos, querem fechar, cansados. Não aguentam mais manter a vigilância do perigo. Feto adulto, pernas dobradas e braços enlaçados, tiritando, dorme.
E ouve. Lá fora, o barulho da chuva e do vento, que sacodem as imensas árvores em volta, inunda a alma de medo. Todas as ameaças estão lá, ele ser pequenino e indefeso, diante dos gigantescos animais, que vêm e vão, fazendo tremer o chão, seus urros e dentes, quando se enfurecem e enfrentam.
Mal começa a escurecer, sem outra chance de resguardo, todos os do bando entram em seus buracos nas pedras, cansados do pânico contínuo do dia. Não vivem, escapam da rotina de risco.
Em algum lugar de sua mente confusa e descontínua, abençoa, de qualquer modo, a natureza, mãe, que cavou aquelas rochas no meio do mundo hostil para que seus filhos sem proteção efetiva, como ele, pudessem se abrigar.
Sente, além do frio que a pele do animal que encontrou morto não consegue aplacar, fome. O que consegue comer de dia não é suficiente, enorme dificuldade de conseguir alimento, aumentada a probabilidade de dano naquele jogo insano do animal, mais frágil e desaparelhado, de atacar seus oponentes, débil separação entre ser caçador e ser caça.
Indiferente às desordenadas memórias do dia, as quais chegam e somem, do mesmo modo que vieram, tiritando, dorme.
Uma buzina de carro recompõe o viaduto.

Há postagem nova em meu blogue Poema Vivo (link). Visite também o Literatura em vida 2 (link).

domingo, 12 de setembro de 2010

Dor concreta

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Gostaria de ser uma estátua de praça. Ver passar as pessoas apressadas. Ou ver os velhos ou os novos cansados, em busca de sombra, aquela moça lambendo um sorvete ou comento pipoca, sentados no banco de pedra fria, em volta de mim.
Ou uma estátua daqueles casarões antigos, num grande jardim, limpo e organizado, mas onde nunca se vê ninguém. Com certeza, haveria outras como eu e poderíamos nos sorrir, se estivéssemos sorrindo, ou nos olhar languidamente, se estivéssemos nos olhando.
Mas minha cabeça está voltada para baixo e minha mão esquerda pousada sobre o peito e a direita, levantada numa bênção. E meu rosto de anjo, concentrado e triste. Estou sentado à beira de um jazigo de uma família rica e tradicional. Mas isso não é bom. Há silêncio o tempo todo em volta de mim, a não ser quando toca aquele sino plangente e os cortejos vêm e passam por mim. Mas poucas vezes param. Porém, passando ou parando, sempre há lágrimas e desconsolo. Algumas pessoas têm de vir amparadas de tanta dor e desespero. E esses sentimentos me penetram e eu nem posso chorar. Petrificada nesse meu rosto bondoso, mas neutro, a solicitude de minha dor não pode ser notada e as pessoas passam por mim, recolhidas em seus sentimentos extremos e me devolvem a minha suposta indiferença.

Há um poema novo de minha autoria em Poema Vivo (link) e matéria nova sobre uma poeta em Literatura em vida 2 (link).

domingo, 5 de setembro de 2010

Retrato falado

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Todos os dias de manhã, me sento nesta cadeira, em minha varandinha, e olho lá para baixo, para a rua.
Vejo passar uma estudante com o cabelo preso. Tem uma rede delicada em volta desse coque. Embora leve uma mochila às costas, esteja de uniforme de escola, concluo que irá aprender balé após a aula. E a imagino junto com outras mocinhas, mão na barra, um braço curvo para o alto, pernas ora arqueadas, ora retas, fazendo os exercícios que uma mulher, madura e branca, leve sotaque de estrangeira, vai fiscalizando, corrigindo, tudo com uma vareta na mão.
Depois dela, passa uma mulher grávida, com dois meninos correndo na frente. Ela puxa as maletas da escola deles. Caminha devagar e, de vez em quando, grita para que parem e esperem. Seu andar é pesado. Passam sempre à mesma hora.
E eles são sempre ultrapassados por um homem de sapatos... e terno. É grave, mas apressado e caminha com passos largos, uma maleta na mão. Vai esbaforido. Por que ele não acorda mais cedo para poder caminhar com calma e ir em paz?
Os dois meninos param, invariavelmente, na banca de um velhinho de voz frágil, que vende docinhos. A mãe, um pouco atrás, faz com a mão que eles sigam, depois fala, mas eles não arredam pé e ela acaba comprando uma bobagenzinha para cada um. E lá vão eles, cada um guiando seu carro imaginário, que acelera e freia a toda hora, o barulho do motor roncando nos lábios.
Vejo também três mulheres, que vão rindo muito e contando casos. Acho que são vizinhas ou trabalham juntas e há sempre muita história para relembrar. Esperam o ônibus no ponto adiante.
Fico ali na primeira parte da manhã. E sei cada detalhe, cada voz. Há um ano que me sento. As pessoas são sempre as mesmas, a mesma rotina, a mesma expectativa de antes. É um quadro que se movimenta, que tem ruído e vida, mas está fixado em minha memória desde então. Ele muda sem mudar.
Às nove e meia, Juçara me chama com sua voz doce e firme. O lanche está pronto. Vejo a mesa: o leite fumegante, uma cafeteira que cheira até a sala, um bolo – hoje é de milho – quentinho, que saiu do forno. E o queijo, na bandeja de louça de flores azuis. Guiado pelo aroma, levanto com cuidado, me apoio na minha bengala, tão companheira, que vou balançando levemente, para a direita e para a esquerda, nesse caminho que visualizo com a imaginação.

Lembro ao visitante que há postagem minha também em Literatura em vida 2 (link) e em Poema Vivo (link).

domingo, 29 de agosto de 2010

Aniversário do Conto-Gotas

Hoje este espaço está em festa, completando seu primeiro aniversário. Convido você a ler meu primeiro conto postado (aqui) e a comer um pedaço de bolo com o blogue (agradeço ao site "Recados online.com" a imagem).
Nessa "data querida", constato, ainda, que meu empenho ficcional, poético (Poema Vivo) e de meus comentários sobre textos literários (Literatura em vida 2) atingiu seu objetivo, junto a meu público leitor, como se constata nas palavras tão pródigas de Graça Lacerda, em seu blogue ANJO DE PRATA (visite-o por aqui). Agradeço o carinho, oferecendo a ela a amizade e este meu conto comemorativo.

Parábola

Eliane F.C.Lima

De vassoura na mão, começou a limpar aquele galpão enorme, cujo fim nem se via, muito novo ainda, não se lembrava desde quando. E ia varrendo, em todos os lugares, às vezes quase nada, às vezes muito lixo acumulado, que ia empurrando para a frente, crescendo sempre o que sua vassoura tinha de conduzir.
Seu impulso era seguir naquela tarefa. Em algumas ocasiões, queria desistir, quase parava, quase desanimava. Em outras, tão envolvido estava em seu trabalho, que não via o tempo passar. Em poucas, pouquíssimas, na verdade, sentia entusiasmo e alegria por ir adiante.
Mas a empreitada foi se tornando cada vez mais penosa. Agora já tinha enorme dificuldade para tocar em frente sua vassoura e o lixo que levava.
Até que um dia, viu, finalmente, o portão. Não era largo, bem ao contrário. Não condizia bem com a grandeza e altura daquele pavilhão. Quando foi se aproximando, ele se entreabriu sozinho.
O homem se preparou para empurrar o tanto de lixo que trouxera naquele caminhar difícil e poder passar, por fim, para fora.
No entanto parou e voltou-se para trás, imaginando que, pelo tempo que tinha levado, o princípio, lá tão longe, deveria estar sujo de novo. E apertando os olhos já bem cansados e míopes, pensou ouvir, talvez, um ruído de outra vassoura, e ver uma pessoa miudinha – acaso uma criancinha? – varrendo azafamada.

domingo, 22 de agosto de 2010

O descobridor

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Sentou-se no banco vazio do ônibus e viu o pacote embrulhado e amarrado. Olhou em volta e não viu o dono.
Ficou na dúvida, ao saltar, perigos rondando nesse mundo moderno.
Mas levou o pacote para o escritório. Cheio de medo, respirou fundo e abriu: dentro, um caderno de capa dura, verde, devia ser caro. E todo em branco.
Aquela era uma grande novidade em seu dia de náufrago da vida. Acordava pela manhã e lamentava ter acordado, lamento mesmo de estar vivo. Dormir era o único lenitivo daquele vazio em que se debatia agora. Comer, andar, trabalhar, decidir-se a prosseguir, enfim, era como um esforço digno de Ulisses.
Mas fez o que era obrigado a fazer o resto do dia. Porém separou alguns momentos do final para sentar-se, colocar a data do dia e tomar nota de seu achado, meio um aventureiro que lança a bandeira de seu país em terra nova. Mas, quando percebeu, tinha escrito mais, tinha narrado todo o dia, tinha falado de si, de sua angústia, de seu nada.
E, passada a hora de sair, trancou a porta apressado, como alguém que comete um pequeno deslize, quase um pecado. Mas com uma sensação de não sei quê, talvez alívio?
No dia seguinte, ao acordar, lembrou da aventura anterior. Olhando no espelho do banheiro, escova e pasta, ousou sorrir? E foi ao encontro de suas difíceis tarefas... e de seu caderno.
Abriu o armário e olhou para ele com um pré-entusiasmo. Fez tudo que devia, mas, vez ou outra, lançava um olhar de namorado para a porta da estante. E contou no relógio os minutos que faltavam para o encontro.
Afinal, abriu-o, acariciou a página em branco, lançou a data e escreveu.
E não narrava mais sobre si, havia seres que nunca tinha conhecido, histórias que nunca tinha vivido. E foram páginas e páginas devoradas, numa fome de louco. E foi embora numa viagem mística, numa viagem mágica, numa viagem magnética.
Saiu tarde do trabalho, caminhando com as mãos nos bolsos, assobiando uma canção inventada.

Aguardo-o, visitante, em meus blogues Literatura em vida 2 (link) e Poema Vivo (link).

domingo, 15 de agosto de 2010

Momento ímpar

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Conto escrito após a leitura do poema “Encantamento”, de Ju Rigoni, postado no blogue Fundo de mim (leia-o aqui).

A vela estufa o peito, senhora de si. E puxa o barco, alheia a tudo. Em volta, um silêncio de alto mar, de solidão completa. Uma luz extremamente branca acima, ilumina o rosto sentado, olhos voltados para baixo.
Parece mais meditação do que navegar, mais encontro consigo do que paisagem. Passa o vento ou passam os pensamentos? Navega o barco ou a alma? Quem estufa o peito, quem puxa o barco?
Balançando, oscila um sentimento vago e forte, ao mesmo tempo, e que ameaça derramar-se do interior e alagar o barco e fazer soçobrar e afogar o peito.
Ali está um rosto e mais tantos, que vão se duplicando nesse barco. Os olhos dois são agora mil e mais. A luz que ilumina, outrora branca, vai ficando azul e intensamente outra.
No barco, não cabem mais os sentimentos que se petrificam em palavras e afundam no mar branco e rolam, incontroláveis, para fora da mesa.
O barco, embora grávido de poesia, veleja, veloz e sobre-humanamente, inconsciente a dentro.

Estou aguardando você em Literatura em vida 2 (aqui) e Poema Vivo (aqui).













domingo, 8 de agosto de 2010

Social

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Chegada nos sessenta, começou a ter problemas de saúde. Era uma calcificação no ombro, era uma dor na coluna lombar, era fisioterapia na cervical. Fora, é claro, os exames laboratoriais – acorda cedo, faz uma dietinha – e a visita ao dentista: quebra um dente aqui, cárie em outro ali.
Aprendeu termos que nunca tinha ouvido falar, sabia na ponta da língua a causa e a consequência de muitas enfermidades, merecedora já de um diploma de medicina.
Isso sem contar as visitas aos médicos. No livrinho do plano de saúde, várias páginas começaram a ficar usadas, as especialidades sendo assinaladas a lápis. Parecia o diário que tinha na adolescência. Manuseado o tal livro, dava para contar a história da sua vida de então.
Mas o que iria preocupar outra pessoa, para ela não era problema, pelo contrário. As saídas eram uma curtição. Sentava na sala de espera e conversava a mais não poder. Quando era chamada lá para dentro, novas amizades, papo novo.
Tinha dentro da bolsa sempre um papelzinho e caneta providenciais. Anotava o nome de um médico “excelente”, o de um rapaz que fazia palmilhas contra “esporão calcâneo”, competentíssimo, e daí por diante.
Dia sem médico para visitar ou terapia a cumprir era uma solidão!

Espero você em meus outros blogues Literatura em vida 2 (as setas são o "Abre-te, Sésamo": ->) e Poema Vivo (->).

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Caiu na rede... fica imbecil

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Será que a solidão me afetou realmente os miolos? Ainda bem que na Internet ninguém me vê. Nem meus amigos. No chat.
No princípio, sentia-me ridículo e não conseguia falar com ninguém. Não só por não conseguir descobrir como é que se entrava na conversa, tecnicamente – aquilo era conversa? –, como por não saber a quem me dirigir. Cheio de franqueza, dizia minha idade: 58 anos. Ninguém me respondia. Até “Ñ enxe tio eu to oculpada.”, eu li. Assim mesmo, com x. Quando, finalmente, entendi o que ela queria dizer com aquele “oculpada”, quem se sentiu “culpado”, fui eu.
Quando alguém falava comigo, eu demorava tanto escrevendo uma resposta, que vinha outro e me arrebatava a garota. Hoje, ñ escrevo +, teclo, quer dizer, “tcl”.
Nas primeiras vezes, fiquei horrorizado. Lia um monte de besteiras e não conseguia me conformar com aquilo. Saía da “sala” – na rede, é claro – e ia para a sala, ver televisão ou dormir.
Ficava mal-humorado durante muitos dias. Pela montanha de tolices que tinha lido, por ter entrado naquele bate-papo ridículo, por não entender nada do que falavam, não descobrir quem falava com quem, por não fazer parte daquele mundo, enfim, ou por concluir, talvez, que eu não fizesse mais parte deste mundo.
Até que resolvi entrar, dizendo: “Aí, galera, sou Bad Boy 22. Foi o “Abre-te, Sésamo.” Ficou quase impossível atender a todo mundo que me respondeu. Concentrei-me em um nome só, qualquer um, sem procurar escolher se as respostas tinham conteúdo ou não. Afinal, nenhuma tinha mesmo.
Era isso. Descobri a chave. E comecei a falar um monte de besteiras mentirosas. Que era baiano. Mas tinha um ap no RJ, de meu tio carioca. E toca a abreviar tudo, para dar tempo e não perder a interlocutora. Aprendi a fazer leitura dinâmica: pega-se um quê qualquer da fala da outra e responde-se àquilo. Se não fizer sentido, não tem importância. O sentido não faz diferença, o que importa é teclar. Escreve-se uma série de “kkkkkkk” depois e faz de conta que era só uma piada. Hoje sou o garanhão do chat. Quando entro, ganho todas as atenções.
O bom é que eu gargalho sozinho, sentado em minha cadeira, das idiotices que digo ali. Rio dos outros, muito... e de mim. Que garantia eu tenho de que Fofona20 não tem setenta anos?

Visite meu blogue Literatura em vida 2, clicando aqui e Poema Vivo por aqui.

sábado, 24 de julho de 2010

Pré-histórico

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

A professora reclamava, as mães dos amiguinhos reclamavam. Sua mãe sempre tinha tentado corrigir aquilo. Em menino, estava sempre de castigo.
Mas nunca adiantou: ele foi até a idade adulta mentindo, como todos diziam. Se estava com alguém, na fila do banco, com os amigos, em qualquer lugar e passava alguém, por exemplo, ele mostrava e dizia:
- Aquele homem ali... – e lá vinha uma história comprida, mas inventada.
Às vezes havia uns lances elaborados e rocambolescos. As pessoas ficavam admiradas. Os desconhecidos acreditavam e ficavam fitando o objeto da história, o tal, com pena, ou revolta, dependia do enredo.

Ele inventava urdiduras até sobre si, visto que fazia uma narrativa em primeira pessoa.
Os amigos, no entanto, foram descobrindo que ele não contava a realidade. Alguns se afastaram dele. Outros faziam questão de não passar por bobos:
- Lá vem esse cara com isso de novo.
Mas a maioria, mesmo sabendo que não era verdade, ouvia e se deliciava. Alguns até apontavam alguém e perguntavam se ele conhecia, só para que inventasse. Ele era capaz de prender a atenção das pessoas por horas. Esses tinham descoberto que o amigo era um ficcionista. Seria um escritor, caso se desse ao trabalho de escrever. Teria ganho muito dinheiro, seguramente. Suas tramas eram de mestre. Mas era um fabulista da oralidade.

domingo, 18 de julho de 2010

Delicadeza e sensibilidade

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Sempre fui uma pessoa muito sensível, desde menino.
Ainda novinho, ia de árvore em árvore do enorme quintal de minha casa. Subia e, se achava um ninho com os ovinhos lá dentro, sem a mãe, acreditava que eles estavam abandonados. Pegava e levava para casa, deixando em uma caixinha que eu tinha ali. Sempre me frustrava. Não nascia nada e eles ainda estragavam.
Quando via aquele monte de formigas no chão de terra, andando para lá e para cá, atarantadas, cria eu, morrendo de pena por ver a aflição delas, que estavam sofrendo muito e, desesperado, para acabar com aquilo tudo, arrastava o pé em todas elas.
Foi assim com a história do gatinho. Sujinho e faminto, levei, escondido, para casa. O bichinho miava muito. Na minha inocência de criança, imaginei que ele tinha esquecido como é que parava de miar. Amarrei a boca dele com um pano. E para que ele não tivesse mais frio, guardei em uma caixa de papelão dentro do armário. Passados muitos dias, como tivesse me esquecido, comecei a sentir um cheiro esquisito. O pobrezinho tinha morrido, imagine a minha aflição. Para que minha mãe não descobrisse nada, joguei no lixo bem longe de casa e derramei meu vidro de perfume dentro do armário. Disse que tinha sido um acidente.
Hoje, mesmo adulto, continuo com esse mesmo tipo de sentimento, imaginem. Continuo a salvar os bichinhos que encontro pela rua.

sábado, 10 de julho de 2010

O inusitado

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Sentou-se no bar, meio escurinho, aconchegante. Pediu um drinque, uma coisinha para comer. Tudo leve.
Na verdade, estava ali porque não aguentava mais a solidão. Queria conhecer alguém.
Há algum tempo não namorava. E seus últimos relacionamentos tinham sido todos frustrantes. Só achava uns homens meio bobos, desinteressantes, que não queriam se entregar. Não era compromisso propriamente o que ela queria. Não no sentido literal. Ver-se sempre, ir aos mesmos lugares, andar pra lá e pra cá juntos? Não.
Mas queria poder contar um momento difícil, ter o outro interessado realmente, ouvir uma opinião. Escutar coisas engraçadas, ditas com sensualidade, mas, principalmente, com muito estilo, ao ouvido. E ter um chamego gostoso, beijos de carinho, um homem que entrega a vida toda naquele momento apenas. Para enfrentar a semana de trabalho e estudo que viria, com a bateria amorosa recarregada.
Depois que o garçom se afastou, bebeu um gole e relanceou os olhos em volta. Foi de mesa em mesa. Até que foi atraída para uma, ao canto, onde encontrou uns olhos, que a olhavam. Mas não diretamente. E, lá da adolescência, veio a expressão poética machadiana: os olhos de ressaca, que vão puxando para dentro, como o mar revolto. Uns olhos... de mulher! Sorriu por dentro. De mulher?!
Mesmo surpresa percebeu que estava gostando muito, muitíssimo daquilo.
Tornou a sorrir, agora para fora.

domingo, 4 de julho de 2010

Ermitão

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Tinha passado por aqueles reveses terríveis que só a vida sabe inventar. No último, nada mais que um barquinho à vela no meio de um furacão em alto mar.
De repente, quando veio uma onda maior, sua alma caiu no meio da voragem. Não emergiu mais...
Desesperado, sem rumo, sentia-se perdido numa ilha. Resolveu aproveitar o mote. Comprou uma barraca de camping, cobertor e tudo o mais, muito repelente, colocou as contas em débito automático, fechou o apartamento, e se embrenhou pela floresta da Tijuca, panelas e tudo mais nas costas.
Cuidadoso, foi marcando o caminho para voltar, quando preciso. O cuidado para não se perder de vez – perdido já estava, na verdade – ajudou muito a começar a se equilibrar. Pensar em alguma coisa completamente diferente de sua vida, em alguma coisa concreta, foi o começo do remédio.
Passou a morar na barraca, bem escondida, cobertinha para não chover dentro. Fazia sua própria comida, fogãozinho a gás, para não incendiar tudo.
Passava muito tempo sem ver ninguém. E era pássaro, inseto de todo tipo. Nadava em uma cachoeirinha perto, água gelada que só vendo, corpo nu. Pegava dali para cozinhar, lavar roupa. Para beber, trazia um garrafão de vinte litros, lá de baixo.
Porque descia uma vez por mês, para ir ao banco conferir a aposentadoria e comprar mantimentos. Passava em um barbeiro, cortava o cabelo, o máximo de urbanidade que conseguia agora.
Naquele dia, dormia em um hotelzinho barato. De madrugada, ia ao apartamento só para conferir tudo. De manhã, café em uma padaria desconhecida.
Um dia, em sua floresta, braços abertos de preguiça na manhã que raiava, ouviu um barulho perto, no meio do mato. Deu um passo atrás, escondeu-se atrás de uma árvore.
Viu, com surpresa, sua alma meter a cara entre duas enormes moitas, risonha e desafogada.

domingo, 27 de junho de 2010

Fartura

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Sol começando a sumir, punha-se a esperar pelo marido, debaixo da mangueira enorme, sombra sobre a casinha pequena. Banquinho simplesinho de madeira. A comida já quentinha, o banho tomado, cabelos soltos, presa, uma flor da roseira.
O cachorro magro se levantava, espetava as orelhas e balançava o rabo, antes de ninguém ver. Lá vinha ele, enxada nas costas, bolsa das sementes no lado, a outra bolsa com a marmita e a garrafa d’água. Andando devagar, chapéu desabado sobre os olhos para tampar do sol.
Trabalhava sozinho na rocinha. Não colhiam muito, mais para comer. Vendiam alguma coisa na feira de domingo. E os ovos das galinhas que ela criava.
Não tinham filhos. Mas até que era bom. O que colhiam não daria para mais outra boca.
Vista ela, ele sorria um sorriso largo, mostrando os dentes lindos, na boca mais linda ainda. Ela achava. Magro, moreno de queimado.
O cachorro já vinha junto, pulando de contente. Ela não pulava, mas era só o que faltava. Abraçava seu homem, feito tivesse vindo de outro planeta. Era esse o sentimento. Nunca acostumada com tanta felicidade. A vida pobre era só um detalhe.
Ele não tinha sido o moço mais bonito do lugar. Nem o melhor dançador. Nem o mais simpático. Caladão que só ele. Mas ela achava muita sorte que ele tivesse se apaixonado por ela. Se achava sem-gracinha, desenfeitada. E era um homão, só ela que sabia, ainda bem. Mesmo depois do trabalho do dia todo, do sol forte, do cansaço. O abraço dele, na cama, era de queimar. Toda minhoquinha debaixo dele.
Às vezes, ela tinha de ir à roça ajudar. Era quando, por sorte e trabalho duro dele, iam colher mais.
Acordava ainda escuro, feliz da vida, fazia uma marmita dupla, quentinha e enrolada em muitos panos. Chapéu na cabeça.
Passava o dia enchendo cestos. Voltava cansada e moída, mas o coração farto de contente.
Queria ir sempre. O marido não deixava. Dizia que ela não tinha de se cansar tanto todo dia. Mas um dia, sem querer, ele soltou a verdade: preservava como tesouro as idas dela à lavoura. Para ele, também eram dias de festa.

domingo, 20 de junho de 2010

Jogos urbanos

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Era muito pacato. Aquele bom amigo com quem todo mundo desabafa. Prestativo, que auxilia o colega na hora do trabalho acumulado.
Mas tinha suas brincadeiras secretas. Aproveitava-se da neurose urbana.
Punha uma touca de tricô na cabeça, uma calça de brim bem desbotada, uma camiseta preta, uma mochila nas costas. Mochilas estimulam a imaginação: para que aquele homem está com aquela mochila? O que haverá lá dentro?
Saía de noite, umas oito horas. Parava em uma rua pouco movimentada, em frente a uma casa. Do outro lado da rua. Perto de uma árvore. E ficava ali, olhando para uma janela. Sempre acontecia de aparecer alguém. E vê-lo. Olhavam um pouco e entravam. Podia apostar: daqui a pouco, olha a tal cara de novo. Agora meio escondida atrás da cortina.
Vinha um, vinha outro, às vezes muitas pessoas juntas. Ninguém podia acusá-lo de nada. Nada fazia.
Tinha documentos na bolsa, era alto funcionário público, bem colocado na vida funcional. E na bolsa, não havia nada de perigoso. Nem arma, nem máquina fotográfica. Só coisas que um cidadão pacato e dentro da lei tem.
Tinha ainda uma boa desculpa. Estava ali esperando um amigo que havia marcado com ele. Iam pegar a mulher dele que estava de plantão em um hospital. Não sabia o que havia acontecido, por que ele ainda não tinha vindo. Tinham combinado de tomar um vinho, até a hora dela sair. Vai ver o carro dele tinha quebrado, o amigo já vinha reclamando de um barulho. Imaginem que ele não tinha trazido o celular para receber o aviso do outro.
Ficava até umas duas horas da manhã. Até ter certeza de que os moradores da casa tinham passado boa parte da noite em claro. E estavam com muito medo. Dispostos a chamar a polícia.
Na primeira vez em que a janela ficava vazia, ia embora, pegava o carro que tinha deixado em outra rua.
Era a pessoa mais pacata do mundo. Qualquer amigo colocava a mão no fogo por ele.

domingo, 13 de junho de 2010

Imutável final

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Leiloquinha do papi,
Tô com uma saudade danada de você. Não esqueço nosso último encontro. Espero você lá na adega. Com esse friozinho, um vinho cai bem. Depois a gente inventa...
Mozão

Oi, my baby Lei,
O que houve? Te esperei até as dez. Tô preocupado. Aconteceu alguma coisa? Só liguei o comput para saber o que houve. A gente não pode ligar pra você, não é...
Mozão

Menina,
Já to ficando nervoso. Mandei a última mensagem há três dias e você não responde. Por favor, diga alguma coisa. Só pra eu saber se está tudo certo. Tenho ido à adega todos os dias ver se você aparece.
Mozão

Oi,
Não tenho conseguido dormir. Estou indo a todos os lugares aonde sei que você vai. Só para te ver de longe. Nem estou trabalhando direito. Não consigo me concentrar. O Pagaré, Paganre, Pangaré descobriu alguma coisa? Viu só o meu desespero, nem consigo escrever direito. Se não responder, vou radicalizar.
Eu

Leila,
Fui a seu trabalho hoje. O pessoal disse que você não tem ido lá. Está doente. Seu marido ligou, avisando. Eu fiquei gelado. Quase desmaiei. Não pode nem levantar da cama para ir ao comput? É isso?
Eu

Oi, Mozão,
Eu estava doente mesmo. Mas estou louca para te ver. Te espero às nove horas. Imagine que o Pangaré vai viajar e fico livre a essa hora.
Abaixo, um endereço novo e seguro para a gente se encontrar. É um hotelzinho bem baratinho, mas escondidinho:
Rua General Gastão da Costa, 52, na Lapa.
Não deixe de ir de jeito nenhum. Bolei um monte de surpresas para você.
Sua eterna Leila.

domingo, 6 de junho de 2010

Velho anseio

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Não tinha conhecido sua mãe. Tinha sido criado pelo pai, um homem simples. Mas sua história era um exemplo daquelas vidas que cheiram à vitória. Pelo menos financeira. Tinha conseguido criar uma rede de comércio e sua família, agora, não tinha a menor idéia do que ele tinha passado. Porque ele tinha passado maus pedaços.
Para que o pai trabalhasse, tinha ficado na casa de uns e outro durante o dia. Na maioria das vezes, não acolhido de boa vontade. Diferença gritante entre as crianças da casa e ele.
À noite, o homem sempre ia buscar o menino. A amizade do pai era quase consoladora. Mas faltava a ele uma mão carinhosa e feminina, as desculpas que uma mãe sempre dá para os malfeitos de filho, mesmo que erradamente. Ele via isso em relação aos outros pequenos. Ele sempre era o culpado. O que doía não era a injustiça, às vezes ele errava mesmo. As lágrimas eram por não ter ninguém que lhe passasse a mão pela cabeça e acreditasse nas mentiras dele, como faziam com menino comum. E ainda as brigas do pai depois, único momento em que poderia ter afeto.
Cresceu meio durão, mas lá no fundo, bem no fundo, ficou o menino desejando colo.
Seus filhos regalavam-se com as coisas boas que podiam ter agora. A mulher era boa e tinha sido escolhida mais por suas qualidades morais do que por seus dons afetivos. A lacuna sempre aberta.
Um dia, já doente, chamou toda a família e alguns amigos. Entregou a um deles um documento que tinha feito em cartório, não confiante na palavra dos parentes. Depois de morto, nada de corpo cremado. Queria ser enterrado em um cemitério dos que havia agora – tinha comprado um lote –, muita terra e vegetação por cima, grama verdinha, natureza. Passaria o resto da eternidade acolhido no colo da Mãe-Terra.

domingo, 30 de maio de 2010

O poder das palavras

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Quando olhava para a janela da cozinha do apartamento ao lado via o papagaio pendurado no poleiro, perna acorrentada. A moça olhava e dizia:
- Como vai?
Ele nunca respondia. Aliás, só ouvia uns grasnados sem sentido. Para ela, pelo menos. Imaginava que devia ser revolta, pedido de socorro, condenado sem advogado. Era piada, mas não conseguia achar graça. Sempre combinava que ia consultar o Ibama sobre aquilo. Os dias iam, corridos, as horas mal davam para tudo. Sábado e domingo, ninguém ia atender em repartição pública.
Um dia, cabeça em sua janela, ouviu do outro lado:
- Como vai?
Arrepiou-se toda, como a própria ave fazia. Não acreditou. Parece que para confirmar a dúvida, a repetição:
- Como vai?
Agora em outro tom, mais alto e aflito. Exigência de resposta.
- Eu vou bem. E você, como vai?
- Como vai? – repetiu a ave, feliz do contato.
Ficaram nesse diálogo monótono algum tempo, cada um querendo saber como o outro ia, sem resposta, mas muito alegres de se falarem. Até que a hora reclamou a saída.
Todos os dias, agora, ela ia para a janela, saudar o novo amigo.
Alguns dias depois, entrou com ela no elevador um homem comentando com a mulher:
- Papagaio imprestável. É mudo. Não adianta ensinar.
Viu que era o vizinho dono da ave. “Papagaio imprestável”? Afinal, um papagaio só presta para si, aquela era boa. Além de tirar da mata, de acorrentar sua patinha, ainda insultava o bichinho. Teve vontade de dizer quem é que não prestava, contar a verdade, que o papagaio falava, sim, era inteligente. Mas não ia trair o amigo. Ao contrário. Deixaria de almoçar, mas, naquele dia, ligava para o Ibama.
Quando desligou o telefone, pensou, vitoriosa, que o papagaio não era mudo, é que ele só queria falar na hora certa.


domingo, 23 de maio de 2010

Joia rara

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Era um homem quieto. Uns olhos observadores e miúdos, guardando para si o que viam; os lábios finos, quase dois traços naquele rosto sereno; as orelhas ligeiramente grandes, testemunhas acabadas de um ser sem alarde. Apesar de tudo, não era feio, o todo uma harmonia das partes irregulares.
Coisa alguma denunciava o grande respeito que sua mulher e suas três filhas tinham por ele. Muito o amavam, as quatro.
Era ourives. Em um quartinho dos fundos da casa, não fabricava joias, criava obras-primas, Miguel Ângelo do subúrbio: era um gênio, coisa de deslumbrar críticos de arte, se a humanidade conhecesse o trabalho e seu autor.
Só poucas pessoas avaliavam-lhe o valor: a família e um dono de uma rede de joalherias, sofisticadíssimas, que vendia suas peças. Os clientes milionários não tinham a menor ideia de onde vinham e só a cadeia de lojas recebia as loas das revistas especializadas. Não foram poucos os prêmios que algumas de suas peças receberam.
De nada ele soube. E a parte que recebia dava para manter a família, com decência, é verdade, mas sem um excedente para um futuro mais promissor.
O que lhe enchia o coração, sorriso muito econômico, eram os louvores das suas mulheres: “Ele não deveria vender aquela, pelo menos aquela não.” E isso sempre dito a cada nova peça. Ele admirava de todos os ângulos e reprimindo a alma a transbordar de felicidade e orgulho, dizia, laconicamente, que precisavam comer.
A relação entre o ourives e o, agora, seu único comprador fora bastante ocasional, quando ainda fazia suas peças por encomenda.
Tendo ido ao fornecedor de matéria-prima, dono de um pequeno negócio, lá encontrou o rico negociante, amigo do outro de velhos tempos. O dono da lojinha contou que o desconhecido era ourives... e dos bons! O visitante ilustre guardou o endereço escrito a lápis em um pedaço de papel. Um dia, apareceu no distante bairro. Viu as joias, deslumbrado, mas não deixou transparecer sua emoção. Como se fizesse um favor, comprou-as, dizendo tentar “passar adiante”. Encomendou outras e, dali para a frente, o ourives só vendeu para ele.
A mulher do ourives, desconfiada, dizia-lhe que devia procurar saber quem era aquele comprador. Embora de táxi e vestido de maneira bem discreta, não escapava aos olhos perscrutadores da observadora senhora a elegância que emanava dele. Com os anos, ele já quase se tornara um velho conhecido, mas ela ainda mantinha uma dúvida na alma.
Um dia, saiu antes da rotineira visita e ficou esperando, perto de um ponto de táxi. Quando o veículo do negociante passou, ela mandou segui-lo. Boca aberta, viu, no bairro seguinte, o homem saltar e entrar em um carro particular com motorista e tudo. Sem pensar na despesa, mandou o outro atrás.
Pagou com o coração apertado. Com muita timidez, entrou na loja. Uma vendedora se aproximou dela e a mulher desconfiou que era para barrar sua passagem. Agradeceu e disse só pretender olhar um pouco. Um segurança ficou de longe a observá-la e, discretamente, ia seguindo seus passos.
Em uma vitrine especial, as joias de seu marido. Sobre o vidro imaculado, várias revistas abertas, em destaque, exibiam as fotos das peças, mas era outro o nome que estava lá.
Quis gritar que sabia quem criava aquelas maravilhas, o artista, o ser iluminado por Deus, toda exaltada. E o sofrimento escorreu pelo rosto abaixo.
Foi embora, tropeçando pela calçada, soluçando sem pudor pela rua, até conseguir perguntar a alguém por um ponto de ônibus.
Ao chegar a casa, encontrou o marido sentado diante da televisão, o pijama tão limpinho quanto aquela alma singela, que não tinha o direito de profanar. E temeu apagar de dentro dele aquele algo que ela não sabia de onde vinha e que criava o divino. Aquelas orelhas tão amadas não tinham sido feitas para ouvir as terríveis coisas humanas.
E se calou. Dali para a frente, trancava-se no quarto, quando o joalheiro vinha, chorando muito, revoltada por não poder falar.
Até que um dia o marido, discretamente como viveu, se foi. Não fosse pela presença das filhas, o imenso vazio não seria suportável.
Trancou a porta da oficina e escondeu a chave. No velório, pensou que agora a fonte estava seca. A quem o outro iria espoliar? E, para surpresa de todos que sabiam o quanto ela amava o marido, ela não chorou.
No dia seguinte, com a alma vestida de negro, entrou no mundinho do ourives. Sobre a mesa, a obra em que ele trabalhava justamente no momento do infarto. A seu lado, um caderno de desenho desconhecido. Abriu-o. E descobriu um marido ignorado: em cada página, um desenho, feito a grafite, magnífico, de mulher nua: era seu rosto, seus seios, seu sexo, a se contorcer de amor. E, embaixo de cada nova posição sensual, o esboço de cada obra que ele fizera, até a última, inacabada. Em um delírio de criação quase poética, metamorfose do gênio, do desenho a joia surgia, como um presente a ela.
Com o peito a latejar de orgulho dele, saiu do cômodo, trancando tudo que estava lá dentro, inclusive as joias, ritualisticamente, como faziam os súditos aos túmulos dos faraós.
E esperou, ansiosa e deliciada, agora que o marido não podia ouvi-la, a próxima visita do joalheiro.

domingo, 16 de maio de 2010

Rei posto

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Quem vê aquele homem de bengala, guiado por seu cão, se abaixar e fazer-lhe um afago, humildemente, carinhoso e grato, fica comovido. Mas nem sempre foi assim.
Mocinho ainda, sentava no banco do motorista do ônibus como se fosse um trono. Era a única vez em que era importante. Dali dirigia a vida dos passageiros. As que podia. Não se metia com qualquer um, não. Claro. Vingava-se de estudantes e idosos, todos em suas mãos.
Sua profissão era necessária: muitos dependiam dele, os que esperavam no ponto, principalmente. Muitas vezes ele passava direto. De propósito. Para mostrar quem mandava. Exercitava seu poder.
Sabia de sua importância: errando na direção, colocaria a vida dos passageiros em risco. Sentia-se um rei. Era o que compensava sua rotina medíocre de homem sem muita ambição e futuro.
Sua camisa estava sempre limpa e cheirosa, valorização de seu papel social, homem-deus.
Não permitia que vendedores de balas entrassem em seu veículo, nem pessoas com malinhas de animais, guardadinhos e quietos, nenhum estorvo para os outros passageiros. No ponto inicial, palavra definitiva:
- Em meu ônibus cachorro não entra.
Ia embora estourando de orgulho, coluna ereta, cabeça levantada. Mais arrogante do que o dono da empresa. Estava ganho o dia.
Mas o tempo passou, não muito. Um diabetes galopante, herdado de não sei quem da família, o fez se afastar do trabalho. Ficando cego, aposentado de vez. Bengala branca de um lado, no outro, doado por uma pessoa caridosa, teve de ceder o trono e o poder para um modesto cão.

domingo, 9 de maio de 2010

História de criança

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Ao ver minha neta, penso que memória da infância não é coisa em que se confie. As casas enormes de então, revistas quando adulta, diminuem muito.
Fomos uma vez à casa de uma tal Deolinda. Portas enormes. Algumas divididas em quatro: abre-se na vertical ou na horizontal. Encanto dos olhos, imaginação à solta. Comadres, cotovelos apoiados, conversando.
Cozinha imensa, azulejos cumprindo o nome, azuis e brancos, todos desenhados. Ouvi a palavra “coloniais”. Uma mesa grande, de madeira grossa. Filtro grandão, de barro. Moraria ali um gigante?
A dona da casa, mostrando tudo, levou-nos ao segundo andar. Num cômodo de santos, um oratório, muitas estátuas infelizes, olhos de sofrimento. No chão, do meu tamanho, um Santo Antônio. Achei belo ou tive medo, não sei.
E num quarto trancado, a dona murmurou: “Esse não se abre, sabe.” Mamãe parece que sabia. Eu, que não, fiquei morrendo de curiosidade. O que haveria ali? Vi que a anfitrioa e mamãe caminhavam amortecendo os passos. Imaginei logo um ser ameaçador, trancado. Diminuí o andar para ver se ouvia algum ruído incomum. Mamãe olhou para mim com o olhar que os pais sabiam dar antigamente.
Embaixo, mesa da sala, toalha de linho e cheirosa, tivemos um lanche dos deuses. Já satisfeita, a gula não acabava, vendo cada coisa melhor do que a outra. Mamãe caprichou no olhar de novo, mas Deolinda e sua mãe, uma avó de filme, não deixaram mamãe brigar. Envaidecidas por verem que serviam delícias, me incentivavam. Parece que não recebiam visitas com frequência. O que era incompreensível. Tudo ali era bom. Elas muito agradáveis. Mas eu achava que os olhos das duas se pareciam com os dos santos lá de cima, embora as bocas sorrissem e falassem palavras amenas.
Terminado o lanche, fomos para a sala de estar, sofás antigos e paninhos de croché sobre as banquetas e móveis.
Sentadas, as adultas retomaram a conversa. Quando eu disse alguma coisa engraçada, dessas que só as crianças sabem dizer, todas riram alto. Nesse momento, um barulho ensurdecedor começou lá em cima. Pés batiam no chão com força e na porta, além de urros lancinantes. Não sei até hoje se era homem ou mulher. Silêncio absoluto, no primeiro momento, as duas senhoras ficaram vermelhas e sem ação. Eram a vergonha encarnada. Mamãe, bem prática, olhou pela janela e viu papai já esperando naquele carro antigo. Tinha sido uma tarde e tanto, disse consoladora. Esperava as duas em nossa casa. Beijamo-nos todas.
Papai, cabeça na janela: “Acabei de chegar, já ia chamar.” Muda, me joguei no carro, coração aos pulos. Bem que eu sabia. Ali havia uma lembrança para o resto da vida.

domingo, 2 de maio de 2010

Fidelidade

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Era um velho guarda-chuva. Estava perfeito, sim. Mas era um modelo ultrapassado, dos pretos, de homem. Mas, hoje, homens já não ligam para a cor do guarda-chuva. Ele tinha ficado em um canto do quarto, atrás de um armário, quase desbotado. Quase.
Tinha enfrentado muita chuva. E vento era o pior. Houve vezes em que temia quebrar. Varetas soltas, ia sendo consertado. Material bom, firme a coluna e o tecido. Ameaçando puir. Só ameaçando, depois de tantos anos e tempestades. Grandes, desses que parecem um guarda-sol de praia. Não era prático no sentido de caber em bolsas. A praticidade de um guarda-chuva, afinal, é proteger da chuva, não ser fácil de carregar.
Mas não estava triste por ter sido esquecido. Pelo contrário. Só queria sossego. Cada vez que iam limpar o quarto e o tiravam do lugar, tremia de medo de ser visto. Voltava para seu canto, após a faxina.
Às vezes, espiava para fora pela janela ou ouvia o vidro sacudindo pelo vento e pela água. A vontade de ver a rua limitava-se à lembrança. Apesar de perfeito, estava velho, não estava mais para confusões.
Mas ouvia, preocupado os comentários dos moradores da casa. Não se faziam mais guarda-chuvas que prestassem. Eram todos descartáveis, mesmo os de loja. Bons eram os antigos, duravam várias gerações. Encolhido, ele pensava: “Eu sou um antigo.”
Um dia, visitas na casa. A chuva começou a cair e surpreendeu a todos. Ouviu as exclamações de surpresa: “Logo hoje, que eu tirei o meu da bolsa.” Era a amiguinha da neta de seu dono. Adolescente. Dessas que não têm cuidado com as coisas e, quando levam alguma coisa emprestada, não trazem nunca mais.
Final da tarde, chuva persistente, alguém lembrou do aposentado. Foi apanhado de trás do armário. Quando, horrorizado já ia saindo nas mãos imprudentes, o avô, tão aposentado quanto o guarda-chuva e bem mais mal-humorado do que ele, olhando feio para a neta:
- Um momento, mocinha... esse objeto é meu. Ninguém me pediu e mesmo que pedisse, não vendo, não dou, não empresto. Veio de meu pai. Cabo de madrepérola.
- Madre quem? – perguntou a moça, cara de incompreensão. E ainda comentou baixo com a amiga – Só podia ser de madre. Preto para combinar com a roupa.
- Dicionário, dicionário! – respondeu alto o velho, apontando para a estante da sala. Pisando firme o idoso e respirando aliviado o guarda-chuva, foram os dois, retos, para o quarto.