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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A chave do destino

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Sem emprego, lugar sem recurso, capinava terrenos por encomenda, não fosse morrer de fome.
Num desses, bem cedinho, a enxada bateu em algo duro. Uma pedra? Viu uma ponta acinzentada. Curioso, desencavou. Dentro duma caixa de ferro bastante enferrujada, uma chave esquisita.
Deu tratos à bola: devia ser da porta da casa. Precaução: o dono, se perdesse a chave de uso, garantia entrar, mas com cautela. Casa? Que casa? Terreno baldio, vendido pela primeira vez. Pelo aspecto da caixa, estaria ali há mais de cinquenta anos. Sacudiu a cabeça, sem entender. Deixou a caixa no mesmo lugar, terra em cima.
Continuou sua labuta. Suor por todo o lado. Mas o trabalho ia avançando.
Depois do almoço, corpo sentado sobre pedra grande, marmita comida, lembrou recomendação do dono: apartar a pedra para um canto do terreno. Ia descansar um pouco, porém.
Pensou na ingratidão da vida. Ia para os quarenta. Músculos fortes de tanta capina. Mas inteligente. Adolescente, muitos sonhos. Ia ganhar o mundo. Ganhou aquela enxada, garantia de comida na mesa. Acariciou sua “bichinha”, como chamava.
Espantou a filosofia e a tristeza. Reuniu toda a valentia. Primeiro arrastão, a pesada nem se mexeu. Não saía. Depois de muitas tentativas, já enfurecido. Mexia com sua honra de homem.
Viu que estava travada por uma ponta. Mudou a rota do empurrão e ela andou com facilidade. Então era isso, continuava forte.
Com a enxada, cavucou em volta da ponta. Outro objeto de ferro. Com uma série de golpes, foi afundando o buraco: um cofre, meio metro de comprimento.
Então seu cérebro se iluminou: a chave! Tremendo, concentrou-se todo para saber onde tinha enterrado de novo.
Passou grande parte da tarde, escavando, aflito, coração aos pulos. E se o dono viesse conferir o trabalho? Era dono do terreno, não do cofre. Finalmente achou.
Já anoitecendo, terreno todo limpo, buracos tampados, saiu, empurrando seu carrinho de mão, chave bem guardada no bolso, cofre coberto com sacos velhos voados de longe, enxada cuidadosa por cima.
Guardado tudo em casa, foi receber seu pagamento do trabalho. Era o que faria um homem sem cofre.

Aguardo a todos em Literatura em vida 2 (link) e Poema Vivo (link).

3 comentários:

ju rigoni disse...

Excelente conto, Eliane! Cinematográfico, e de grande profundidade. Não se trata apenas de encontrar a chave... Para apossar-se dela há que se fazer uso das "chaves" que fecham ou abrem por dentro, - as chaves realmente capazes de escancarar portas para novas possibilidades de vida.

Adorei o final.

Bjs e inté!

Tais Luso disse...

Oi, Eliane, conto gostoso, curioso... O que teria dentro do cofre?
E junto a realidade de quem trabalha de sol a sol, de pouca comida, dos menos afortunados que de graça só recebem sonhos. Muito bom.
Beijo grande.
Tais luso

Guidinha Pinto disse...

Como sempre, uma estória bem contada, comigo a puxar que fosse um cofre cheio dos sonhos que ele teve na juventude.
«Cinematográfico» como frisou Ju Rigoni. Parabéns.
Beijo