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domingo, 27 de dezembro de 2009

Fruto do mar

Eliane F.C.Lima

Desde os tempos de garoto, era todo concentração.
Um dia, pela primeira vez foi à praia, morador de uma cidade de interior.
A família apertada no carro velho, a praia afastada, vidro aberto da janela, seu rosto era só verde e vento. O veículo corria, mas ele ficava na estrada, plantado nos troncos das árvores e ia diminuindo, diminuindo...
Na água, as outras crianças, explosão de tanta alegria e sal, golfinhos. Ele, mãos enfiadas no chão, era um monte de areia.
Na beira d’água, olhando as ondas, seu corpo liquefeito, ia e vinha, espuma borbulhando na praia.
Cara virada para o alto, subia e planava, suas asas. Todo gaivota, girando no azul, seus olhos, de cima para baixo, prata de peixe e mar.
Durante um bom tempo, indo à escola e em casa, seus livros, ele foi concha e maresia.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Pessoa

Eliane F.C.Lima

Um dos seres humanos mais dignos que conheci foi minha tia avó.
Quando nova era orgulhosa. Não aceitara o relacionamento amoroso do pai, viúvo há muitos anos, com uma governanta da casa. Morando na parte de cima, entrava toda vez que a outra aparecia no quintal.
Ficou solteira a vida toda, mesmo não querendo. Tinha sido apaixonada por um rapaz judeu, que a queria também, mas que avisava:
-Quando eu sumir, é porque me casei com uma moça de minha religião.
Dito e feito.
Teve outros namoros, todos gorados.
Um dia, já ida nos anos, conheceu um senhor. Marcou com ela de ir conhecer sua família. Não apareceu.
Contatada a família, revés do destino: morreu na frente do espelho, enquanto dava o laço na gravata.
Com o tempo, já sozinha e só com uma pensãozinha que lhe deixara uma madrinha, teve de trabalhar como acompanhante de uma senhora com problemas mentais, fez serviço de empregada doméstica.
A vida tinha girado. Mas com o mesmo sentimento com que não tinha aceitado o casamento do pai, aceitou sua própria condição, sem nunca reclamar nada, fazendo o que devia fazer. Não parecia triste nem humilhada. Agora o orgulho não era mais defeito, era pura honradez.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Lar, doce lar

Eliane F.C.Lima

Tinha um quadro na parede há muitos anos. Já estava cheio dele. Resolveu guardar e comprar um outro novo.
Passado um ano, precisando de espaço no armário, pegou o quadro e pagou um sujeito para levar, junto com outras tralhas velhas.
Quando saiu de casa, no dia seguinte, lá estava o quadro, postado ao pé de um poste, no meio da calçada.
Sentiu-se meio envergonhado de vê-lo ali, sujando a rua, como se fosse ele que tivesse colocado.
Pegou o quadro e levou-o de volta. Para o armário. Um dia, jogava de novo fora.
Passados dois anos, nova arrumação. O quadro vai parar no lixo de novo.
A síndica reclama do objeto, do lado de fora, junto ao lixo reciclável.
Sem graça, o dono leva o quadro para dentro.
Mais três anos. Armário aberto, o morador pega o quadro. Caminha com ele nas mãos até a sala em direção à porta de saída. Olha para o que está atrás do sofá. Não aguenta mais olhar para ele.
Retira com cuidado. Observa o mais antigo. Realmente, ele é bem mais bonito. E querido.
Vitorioso, o quadro anterior volta para seu antigo posto.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

De todas as eras

Eliane F.C.Lima

Vive quieta na teia, casa própria. Não perde tempo com mitologia, Minerva, seu castigo implacável, inveja divina da antiga beleza de mulher. Afinal, que beleza maior do que aquelas pernas finíssimas, tantas, aquele corpo peludo e negro?
Balança, em sua seda trançada, mais resistente que cabo de aço, feliz de sua aranhice convicta. Espécie de aracnídeo, nada sabe da Grécia, nova ou antiga, atravessado o Rio Letes do esquecimento. Só o tecer ainda o mesmo, trânsito entre os tempos e as formas.
Perdida sua formosura humana – pudesse falar, discutiria a parcialidade do ato narrativo –, a paciência é sua maior virtude. Fica ali, dormindo, abraçada aos fios, casa-cama-caçada.
Ao menor balanço, abre um olho: vento ou presa? No segundo caso, não se afoba. Deixa-se ficar algum tempo, cansando o almoço, não vá ter trabalho. Depois, toda preguiça, sem pressa alguma, caminha para o banquete.
Nunca perde uma refeição: inseto que passe não é mais inseto. Como agora.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Amizade canina

Eliane F.C.Lima

Dizem que os cachorros é que escolhem seus donos. Dentro do universo com que convivem, é claro. Tive a comprovação um dia, numa conversa com uma senhora muito agradável.
Sua filha, casada, com dois filhos e um marido bom, precisou fazer obras de urgência em sua casa. Como um dos meninos fosse alérgico, mudou-se provisoriamente para a casa da mãe. Teve de levar o cachorro.
O pai, que era um homem metódico, aceitou com reservas aquilo. Primeiro, a confusão dos netos. Gostava muito dos meninos, mas em visita, com hora certa para chegar e para ir. Quando, ao final do dia, todos se despediam, o velho, feliz, beijava os netos. Feliz por tê-los visto e convivido com eles, mas, também, por poder, retomar sua calma e a mulher, dividida por tantos, finalmente, só para si.
O pior foi convencer o marido a aceitar a presença do cachorro. A pobre coitada ficou em um conflito. Usou toda a sua diplomacia para que ele aceitasse. Mas foram impostas algumas condições. Animal, só na parte de serviço.
Chegados todos, a casa ficava sempre meio agitada.
Durante a semana, porém, crianças na escola, pais no trabalho, o avô relaxava. Mas sempre que ele chegava à cozinha, lá da área, Tutu latia, abanava o rabinho, derretia-se todo. Meio sem jeito, o velho ia lá fazer uma festinha.
Passados os dias, ele já vinha para o café da manhã e ia direto “falar” com o bicho, antes de se sentar à mesa.
Um dia, chegando das compras, a mulher, boquiaberta, viu seu vultinho peludo deitado na sala.
Sem saber o que dizer, o marido contou que o cachorro tinha ficado chorando lá atrás. Ele ficou com pena.
Resultado, acabada a obra, filha e família voltaram para casa. Levaram Tutu. Que começou a ficar doente, melancólico, nem olhava para a comida.
No apartamento, o avô ia pelo mesmo caminho. Emagreceu um pouco. Dizia-se preocupado com a saúde do cachorro.
De visita para ver como é que ele ia, o cachorro ganiu até que o homem chegasse perto. E dessa vez, foi o avó que convenceu a todo mundo, principalmente aos netos, que Tutu tinha de voltar.
Cachorro e avô gordos, agora juntos, respiram aliviados, quando as crianças se vão.


terça-feira, 17 de novembro de 2009

Prêmio à reserva

Eliane F.C.Lima

Olhava para o espelho, conhecia aquela cara de muito tempo. Gostava de tudo. Mas não era orgulho da beleza. Era o mesmo amor que a gente tem por um ente querido.
Talvez fosse a única pessoa do mundo que fazia carinho nos próprios braços e pernas. Até entendia gatos e cachorros, que levavam horas a se lamber. Sabia que não era apenas banho, era gratidão. Era isso mesmo, ela tinha um enorme gratidão por aquele velho e cansado corpo que servia a ela, com fidelidade, há tantos anos.
Às vezes, observava os pés ou as mãos e ficava triste, com saudade deles. Lembrava que um dia ia morrer e lamentava por eles, que iam se deteriorar, desaparecer. Não temia a morte por si, mas por cada pedacinho de seu corpo, velho companheiro.
Quando abrissem a tampa do caixão, cinco anos de morta, só encontrariam os ossos para guardar numa caixinha. Sorriu à idéia: abraçou-se toda. Mesmo sem ser vistos, eles estavam ali, tão discretos, fragrados uma vez ou outra em uma radioscopia, temidos pelas crianças, alimentando a imaginação dos medrosos e dos escritores. Protagonistas apenas em contos ou filmes de terror, adulterada a sua enorme função prática.
Todas as partes do corpo, as mais externas, sempre eram admiradas. Mostravam-se em festas, exibiam-se em fotos, eram elogiadas pelos olhares atraídos. E aos ossos, o verdadeiro sustentáculo daquilo tudo, a atenção só era dada, quando, justamente, quebravam ou tinham um problema qualquer. Filhos enjeitados.
Mas a sábia natureza tinha sua filosofia: somente a eles era reservado o direito ao brilho derradeiro.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Io me ricordo

Eliane F.C.Lima

Isso se passava no tempo em que crianças não falavam em conversa de adulto, só ouviam.
Alguns almoços de domingo, pai, mãe e filhos sentados à mesa. Era a senha: desciam, da casa de cima, as três irmãs do pai. Vinham conversar.
Começava conversa, sim, idéias jogadas aqui e ali. Tudo muito comportado, ainda.
Aos poucos, um espírito felliano baixava naquela família carioca, avô baiano. Um frêmito tomava conta dos quatro irmãos, ninguém aceitava mais o que ninguém dizia, discussão instaurada.
As crianças, para surpresa dos adultos que seriam futuramente, embora caladas, se divertiam muito, único momento de descontração no rigor da educação severa da época.
Quase indo às vias de fato, providencialmente, sempre uma das irmãs - ou duas - desmaiava e era preciso socorrer. Atentos, os olhos infantis aguardavam, curiosos, o desfecho apoteótico do drama teatral dominical. Pena não poder aplaudir.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Kant e a práxis

Eliane F.C.Lima

O médico avisou: ou dá uma freada, diminui as atividades, ou vai ter um enfarto. O estresse já atingiu o máximo.
Entra em casa, o relógio em cima do móvel, marcando o atraso: onze horas e dezesseis minutos. Tem de sair correndo. Pensa no médico.
Último esforço, em um impulso, levanta a perna e dá um pontapé no coitado, que voa longe e se espatifa na parede.
Quando pensa em rir, é surpreendido. Uma enorme vertigem faz o ambiente girar.
Assustado vê: não é sua cabeça que gira, são as coisas em volta. Estante, sofá, paredes, o vaso de planta, tudo roda em espiral, feito olho de furacão. Sente muito desequilíbrio, respira fundo, tentando não cair.
Tudo roda cada vez mais rápido, mais rápido, até as cores todas se misturarem e ficar tudo branco. Ausência de tudo, é o nada.
Silêncio absoluto, só o som de sua respiração, ofegante.
A força do branco pleno faz seus olhos arderem, lacrimejarem.
Aos poucos, os olhos vão se acostumando, a cor parece suavizar e consegue imaginar os vultos das coisas. Pressente o sofá, a estante, os quadros na parede, a enorme planta na lateral, os cacos do relógio no chão.
Muito vagarosamente, braços estendidos, caminha para o quarto. Um enorme relógio de parede ainda marca: onze horas e dezesseis minutos. Aquele estaria atrasado? Nunca, tem relógios por toda a casa, todos minuciosamente acertados, garantia de nunca perder a hora.
Vai até a cozinha – seria por ali o caminho? –, parece que esbarra nas coisas, mas vê o relógio em cima da mesa de almoço: onze horas e dezesseis minutos.
Pela casa toda, até no banheiro, neuroticamente distribuídos, os relógios, estáticos na mesma hora. Atitude radical, sem querer, tinha anulado o tempo.



quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O tempo

Eliane F.C.Lima

Colecionava páginas de calendário. Ia enfiando na gaveta para guardar os acontecimentos. Um dia, sem mais nem menos, colocou-as lado a lado sobre a mesa. Olhava para elas. Estava ali o passado. Ano a ano. Reconhecia algumas datas. O aniversário, a morte da tia. Porém, por mais que olhasse, não ouvia suas vozes. Eram páginas mudas. Mortas. Era como se o tempo que escorreu estivesse trancado em um cofre. Inacessível. Então fechou os olhos e lembrou o dia da morte da tia: o telefonema, o táxi, as pessoas, a tarde toda, o enterro. Agora o passado falava, tinha som, tinha cor, movimento. O passado revivia no presente. Viu que apenas o presente existia. De olhos fechados, ainda, pensou no futuro. Era mais difícil ainda, nenhuma imagem para ajudar. Grande esforço de concentração encenar o futuro. Que era isso: acontecia como representação de teatro, pura ficção. Enorme criatividade, sua mente era um talentoso dramaturgo. Mas nenhuma certeza. Abriu os olhos, o presente era momentâneo e certo: sobre a mesa muitas páginas de calendário. Todas mudas.

Esotérico

Eliane F.C.Lima

Desde o começo da aula, ele não queria escrever, amuado e encolhido. Instado, disse que estava com muita dor de cabeça.
A professora segurou a mão do menino. Começou a fazer uma massagem oriental para diminuir a dor. Massageou vagarosamente. O menino quieto, olhinhos fechados, sorriso na boca. Perguntado se a dor tinha passado, cabeça que não! Movimentos circulares, a dor não passava nunca. Professora desconfiou de malandragem. Finalmente, ele assentiu e começou a fazer os exercícios.
Na hora do recreio, sala dos professores, deram informação. Irmão de mais quatro e pais separados, cada um deles levou dois filhos. Ele, o mais velho, sobrou e foi para a casa de duas tias solteiras, que reclamavam da herança humana e do dinheiro, que não recebiam, para sustentar o garoto. Ameaçavam todo dia devolver o pequeno.
Só então a professora entendeu: o que tinha resolvido era o carinho ocidental.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

As fotos do ano

Eliane F.C.Lima

Tinha resolvido deixar de filosofar e partir para as coisa práticas. Comprou uma máquina fotográfica e andava sempre com ela na bolsa. Testemunha da realidade. Pretendia coletar material. Cenas excepcionais, como a garça caminhando pelo parque. Tinha um arquivo grande e rico. De fazer inveja a muito fotógrafo de jornal.
Uma tarde, tirou três fotos de um pássaro enorme pousado na amurada de uma ponte. Como precaução. E a ave se deixando apanhar pela máquina. Indiferente. Até que o pássaro se foi, meio assustado. Ainda registrou seu voo, magníficas asas abertas.
À noite, no jornal da tevê, a notícia de um homem que tinha pulado de uma ponte. Achou que era a mesma, foi conferir.
Ligou o computador e descarregou as fotos do dia. Era a mesma ponte. E era o mesmo homem, lá no cantinho. Como não tinha visto, tão fascinada pelo pássaro estava?!
A sequência de fotos – coisa incrível! –, a partir da quarta, acompanhava a queda do tal. Que não tinha pulado, mas sido jogado. O responsável estava ali. Um especialista seria capaz de identificar.
Foi várias vezes ao telefone de informações, queria o da reportagem de um jornal. Pensou que não devia haver ninguém lá naquela hora.
Não dormiu à noite, ansiosa pelo dia seguinte.
Logo cedo, informada, ligou para o jornal. Não acreditaram de imediato. Teve de ameaçar ligar para o concorrente.
Em encontro sigiloso – tinha feito várias cópias –, entregou as fotos. Depois do furo de reportagem, a polícia entrou no caso. Descobriram o assassino e o resto caminhou como devia.
Tinha conseguido fotografar o imprevisível, que não era o pássaro: surpreendera o destino.
Entrou vários dias em reflexão. Há sempre, pelo menos, uma realidade a mais, diferente da que a gente vê. Sua realidade tinha sido o pássaro. Não fotografado, o homem teria se suicidado, não haveria um assassino. E ali, naquelas fotos, duas versões do animal: uma, seu voo altaneiro; outra, sua baixeza.


domingo, 18 de outubro de 2009

Eva

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)

Era um sítio pequeno, gente muito pobre. Pouca chuva. Uma ou outra plantação vingava. Mal dava para comer. E alimentar as várias bocas. Umas galinhas ciscadoras. Dois galos magros. Comiam o que achavam. Quase nada. Mas assim mesmo, os ovos salvavam a fome.
O pai caladão avisou à mulher: queria braços machos para ajudar. Desde a primeira gravidez, ele esperava um filho homem. A partir da terceira, já amarrava a cara, comunicado que era mais uma menina. Não entrava mais no quarto. Levava quase um mês para dirigir a palavra à coitada, que além da fome, das dores, dos trabalhos com o bebê e com as outras filhas, ainda carregava a culpa. Cada vez que se sentia prenha, entre a esperança do filho homem e o medo do desfecho. A cada nova menina, mais ódio do marido para si e para elas.
Não adiantava as pequenas madrugarem, trabalhadeiras, irem ajudar o pai, fazendo mais do que o possível, sem uma palavra de revolta. Eram responsáveis pela seca, pela terra árida. Ele nunca olhava direto para elas, ordens dadas de cabeça baixa. A mãe achava que ele nem sabia seus nomes. Custava a ir à cidade registrar, indiferença pela nova criança, capim ruim brotado entre as pedras.
À noite, à mesa, comia mudo, olhos fitando o nada. Era como se estivesse só. As meninas também nada falavam, temendo o pai.
Logo que ele ia para a cama, conversavam baixo, até sorriam. Mas não aguentavam muito, o corpo moído, sem condição de aproveitarem um pouco mais a felicidade de estarem sós, serem mulheres.
No quarto parto, avisado do sexo, saiu de casa e voltou apenas no dia seguinte, bêbado, o que nunca tinha feito. Quis bater na mulher e nas três filhas maiores. Nunca falou com o bebê; não fosse a mãe, cresceria órfã.
Um dia, pensando a mulher que estivesse já livre daquela tortura, muitos anos transcorridos, viu as regras faltarem. Escondeu sua descoberta, mas logo que a barriga começou a crescer, viu-se examinada pelo homem, coisa que há muito não ocorria, usada no sexo da mesma maneira bruta dos galos com as galinhas no terreiro.
Os padecimentos do estado acrescidos pela tensão constante, o pavor do dia do parto, as filhas incluídas no sofrimento. Sem esperança alguma.
Nas primeiras contrações, engoliu o lamento na boca, as dores menores do que o medo. Aguentou o quanto pôde, o marido e as filhas saindo para a roça. Quando foi a hora, deitou-se na cama e fez, sozinha, nenhuma surpresa e imensa aflição, a quinta filha nascer.
Pisada forte do marido, agarrou-se à criança. Ela sabia de tudo.
Não vendo a mulher na cozinha, ele irrompeu no quarto. Um safanão jogou a mãe desesperada para trás. Arrancou a criança, examinou-a, levando embora. As quatro filhas, estarrecidas em um canto, tremiam e choravam, ouvindo os gritos da mãe.
No terreiro, montado o burro magro emprestado, sumiu na poeira. Na estrada para outra cidade, desceu e esperou. Fez sinal para vários carros. No primeiro que parou, tirou o chapéu em cumprimento. Mentiu: era muito pobre e tinha quatro filhos. Sua mulher, acabada de dar à luz, morreu em seguida. Sem mãe e leite, a pobrezinha também ia morrer dali a poucas horas. Por Deus, fizesse a caridade de levar e salvar aquela inocente alma.
Tudo voltou ao normal. Menos a mulher: olhar para longe, fala sem nexo. Foi substituída na cozinha pela mais velha. As meninas cercando a mãe de carinho, se podiam. Penteando os cabelos já embranquecendo.
Coisa de dois anos, surpresa e revolta, o ventre da louca se avolumando. Agora o desespero era delas, alheia a outra.
Nos primeiros gritos da mãe – quem sabe lembrando o ocorrido – a mais velha, sozinhas as duas, levou-a para a cama. Fez o parto da mãe quase desfalecida. A moça aparou um menino magrinho, choro forte. Deu um sorriso, Mulher no paraíso saboreando a maçã.
Chegado o pai, ouviu o choro. Amarrou a cara:
- É menino homem – avisou a irmã.
Na cadeira, mão no peito, arfado forte. Entrou no quarto, a mãe amamentando começou a gritar. Entre os uivos da mulher, pegou a criança à força, sexo visto. Saiu do quarto com um largo sorriso na cara.
Naquela mesma noite, a mulher morreu. Desesperado, ele correu toda a vizinhança procurando outra mulher parida. Coisa fácil de achar.
Cresceu o menino. Alta a sua voz já esquecida, com ele o pai era outro, único pé de milho verde no meio da seca. As irmãs sempre na roça, a mais velha agora mãe do pequeno, agarrado em sua saia, fazendo sempre o que ela queria.
Logo o filho foi junto para a roça, aprender a lida, sol a pino, terra seca. Mês após mês, ano após ano.
Dia ainda escuro, pai levanta para o café. Filho já moço, bigodinho nascido, irmãs em volta. Sobre a mesa, uma mala velha. Do lado, comida amarrada, não para o eito.
- Que é isso? – pergunta o homem, já velho.
- Vou embora. Isso não é vida. Não quero morrer de fome aqui – olho rápido para a irmã mais velha, ela fixa nele.
O homem levanta o rosto direto para as filhas, há muito tempo não faz isso. São tantas. Falta uma. Todas cabeças baixas. Só a mais velha encara. Vê prazer nos olhos dela. Bota a mão no peito. Custa a falar, mas o que sai, sai seco:
- Daqui não sai! Preciso de você na roça.
- As meninas fazem isso sozinhas. São elas que fazem o milagre, o pai não vê?
Olha a irmã que vira o rosto firme para fora. Pega a mala, a trouxinha e sai rápido pela porta. Belo cabelo ao vento ainda frio. As irmãs viradas para o terreiro. Acenando.
No meio da pequena sala, um baque. A primogênita olha para trás: o roceiro caído, mão no peito, boca roxa, cara franzida. Erva daninha arrancada, murchando ao sol. Volta-se para a frente, sacode o braço com mais força para o rapaz que já vai sumindo na poeira do caminho.


(Para voltar para a análise deste conto em Literatura em vida 2, clique aqui).

sábado, 17 de outubro de 2009

Ovelha negra

Eliane F. C. Lima

De um dia para o outro, a casinha abandonada se viu habitada de novo para espanto da cidade, que, há muito, não tinha um bom motivo para se espantar.
Senhor passado dos sessenta anos – ninguém pôde fixar esse ponto –, ele mesmo pintou a casa, por dentro e por fora. Sempre de costas. Ninguém conseguiu dar um bom-dia ou boa-tarde. Não atendeu nem às palmas insistentes do verdureiro, convocado para assuntar. Não comprou o leite tiradinho na hora, de Mané de Elvira, porque não mostrou a cara para aquele “Ô de casa”. Na tendinha da esquina, nem um ovo comprado, o que um vivente sempre acontece de precisar, ou em dia de temporal, uma vela para acender. Nada.
Saía com um jipezinho meio velho. Fechava o portão, cara virada para dentro. Na certa comprava tudo fora e as miudezas de esquecimento: algodão, vela, palito, agulha e linha, lâmpadas várias.
A curiosidade não aguentou mais. O que um não sabe, esse um inventa: “Médico, tinha deixado um paciente morrer e foi para ali, curtir a culpa. Não queria ser reconhecido.” O contador e os ouvintes, aumentado o caso, cada um dando um palpite, iam para casa de alma lavada. Novidade esfriada, não satisfazia mais.
“Era um ex-presidiário. Pena cumprida, tinha voltado para casa e encontrado a mulher com outro.” Primeira versão: envergonhado e desiludido de tudo, sumira de casa. A outra: ele matara os dois e caíra no mundo.
Durante um tempo, vigiado a distância, o medo maior que a bisbilhotice.
- É um padre – o pedreiro-benzedor-eletricista na porta da padaria, enchendo os copos de cerveja dos amigos – Fez mal a uma mocinha lá na paróquia dele e teve que fugir.
Logo umas vinte pessoas batiam na porta do padre local, casa avarandadinha atrás da pequena igreja, meio ressabiadas. O santo homem, embora conselheiro de todas as horas, não dava asas à parolagem maldosa de suas ovelhas.
- Mas que história é essa?! – cortou aquele assim que ouviu a patacoada – É isso que vocês andam inventando também às minhas costas? – vinte cabeças sacudiram para um lado e para o outro, todas envergonhadas – E a Santa Igreja é para estar assim mal falada na boca do povo?! Se escrevo ao Papa, ele vem aqui em pessoa excomungar a cidade inteira.
Voltados para casa, ficaram lá trancados até o dia seguinte. Não viram o fusquinha do padre sair rumo à matriz da cidade vizinha. Lá pediu ao pároco para tomar informações seguras sobre o homem. Nenhuma evidência apurada ou notícia de algum caso daqueles, o próprio padre resolveu procurar o novo morador para acalmar as línguas do rebanho tão bem conhecido, integrando o homem à comunidade.
Vendo que o jipe do homem lá estava, bateu palmas na frente da casa: em vão. Depois chamou mais alto e forte. Deu a volta e gritou por trás, lá para os fundos da cozinha. Ninguém respondeu. Ao desistir, muitas cabeças se esconderam rapidamente para não serem escovadas ali mesmo, o padre com cara de fulo de raiva. O fusquinha, na toda, saiu levantando uma poeira tão densa quanto a ira do religioso.
No domingo, a cidade em peso foi à missa e quem se demorou não achou lugar para sentar. O carrancudo dono da farmácia, que tinha birra com a igreja, foi ali só para gozar a cara do representante de Roma.
Ritual começado, silêncio absoluto, a igreja toda só olhos e ouvidos para o padre. Ele oficiou a missa, sempre sério até a hora do sermão:
- Meus amigos, pela pureza e salvação das almas dessa comunidade, sou obrigado a revelar a vocês onde se esconde o demônio.

domingo, 11 de outubro de 2009

Pesadelo

Eliane F. C. Lima

Passava a noite sem dormir, vigia de posto. Havia uma cadeira, mas só podia tirar pestana. Em frente, a casa do aposentado, amigo do dono. Tinha insônia, o desgraçado, funcionário perfeito. Os anteriores foram dispensados por fofoca do tal.
De manhã, fala alta e alegre do empregado diurno, bem dormido. Saía trôpego, mas o sono adiado. Pegava em outra lojinha, na Saara, centro do Rio, olho atento no entra e sai, mercadorias ao alcance das mãos de má fé. Dormir fundo só depois do almoço, em casa. Filhos na escola, à tarde, condição imposta. Seu projeto de vida: quarto escuro, silêncio, uma cama.
A trégua era o ônibus até o centro da cidade, de um emprego para o outro. Sentava no canto. Não falassem com ele. Era uma meia hora mergulhado. Saltava no ponto final, acordado pelo grito do cobrador.
Quando entrou, procurou logo seu lugar. Tudo ocupado. Levanta um cristão. Do assento de fora.
Sentou, mas não teve sossego. Ia caindo no corredor. Segura com a mão, segura com o pé, cai para cima do outro passageiro, que já estava de cara feia. O sono não engata, olho aberto, olho fechado, olho aberto, olho fechado, olho aberto. As pálpebras escorregando, sem controle.
Olhar esgazeado, de zumbi. De repente, no canto aninhado. Leva um solavanco, sacudido o ombro. Era começo de sonho.
Senta reto no banco, posição de soldado no posto. Concentra os olhos na nuca do da frente. É pior. Não leva um minuto. Começa tudo de novo. Olho fechado, olho aberto, olho fechado. Segura com o pé, a mão aperta o banco da frente. Curva violenta, por um triz não vai ao chão.
O do canto não salta, aparafusado no assento. Rosto para fora, vendo as paisagens, dormiu a noite toda. Usurpador. O lugar que por direito era dele. Todos os dias sentava ali...
O pensamento submerge nas brumas. A realidade volta na primeira freada do ônibus, acordado de novo.
Ele quase chora. Novamente a luta: pé, mão, aberto, fechado, quase chão.
De repente, cutucado no ombro. O palerma do canto vai saltar. Canto vago. Nem pensa: se joga contra a janela. Olho fecha. Cabeça cai. Boca abre.
- Ponto final!

sábado, 3 de outubro de 2009

O melhor do mundo

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)

Fica horas em frente à televisão da loja. Chega mansinho, disfarçando, encosta na parede. No fim, perde o controle: senta no chão. Até que os vendedores enxotam da passagem. Então, acorda. Deixa o gramado, Ronaldinho expulso do jogo.
Sabe tudo do ídolo. Só assim. Entreolhando, espiadinha aqui, outra ali: sai de si. Não mora mais na rua. Não está mais sujo nas mãos, nos pés, nas orelhas. Não tem mais fome, nem falta de carinho. Não fugiu das surras do pai bêbedo, agora preso; da mãe, recebendo homens em casa, filhos postos para fora no meio da noite. Ele é amado, aplaudido, mora no estrangeiro. Aparece no comercial, sorrindo, faz maravilhas com a bola.
Os pedestres param na calçada. Alguns riem: ele gesticula, mexe pés e mãos, mímica inconsciente, dublê do outro. Não vê ninguém, nem a si mesmo, sombra de craque; não escuta nada, nem o ronco da barriga.
Dorme no Largo da Carioca, mas roda por Uruguaiana, Sete de Setembro, Avenida Rio Branco, atrás de televisão ligada. Pode ir até o Catete, chegar à Glória ou dar uma esticadinha até o fim do mundo.
Apelido: Doidinho, posto pelos companheiros de rua. Quase não fala. Só sussurra, age, pensa como o outro. É o outro. Acreditar na realidade é matar Ronaldinho, puro suicídio.
Troca tudo pelo aparelho mágico, mesmo a disputa pela comida. Recebe só a sobra dos amigos, de pena.
Não rouba, honestidade involuntária: não enxerga passantes, nem bolsas, nem celulares. Só grama, e bola e pernas e gol e grito e comemoração. Nem cheira cola, sua droga é mais forte.
Menino ainda, é muito magro, só olhos enormes, orelhas enormes, pés enormes: para ver o rosto moreno, para ouvir o sotaque amado, para andar em sua busca maluca. Por dentro: no peito, coração apaixonado; na cabeça, pura imaginação.
De manhã, olha os jornais. Procura ansiosa por retratos do jogador. E sorri, extasiado. Sem coragem para perguntar o que está escrito. Se vê a cara de outro que também olha a foto, confere a aceitação, a admiração. Se ouve elogio, derrete-se todo: elogiam Doidinho, admiram Doidinho, aceitam Doidinho.
À noite, outra tela. No sonho, Doidinho faz propaganda, dá entrevista, joga de novo com o corpo famoso. Acordando, é uma surpresa: só ele, Doidinho.
Hoje a polícia vem correndo atrás de camelô. Pedra para todo lado. Ronaldinho pula da televisão, corre, sonâmbulo, pela calçada. Um baque no peito. Matou a bola? Escorre suor ou sangue? Vertigem forte, somem as pessoas: nas nuvens, de avião voando para a África do Sul. Vai ganhar a Copa.

domingo, 27 de setembro de 2009

Subliminar

Eliane F.C.Lima

Já tinham dois meninos. Pai satisfeito. Por ele, encerrariam ali. Mãe era louca por uma menina. Teve.
Enfeitou o quarto novo todo de rosa. O máximo que entrava ali era lilás. E pôs borboletinhas. E florezinhas. E bonecas. E almofadas, as mais fofas.
Bebezinho, a menina chorava aos berros, quando a mãe punha no cabelo cacheado lacinhos delicados... e desconfortáveis.
Dois anos e meio, arrancou as asas das borboletinhas para ver como é que eram, enfiou as florezinhas na terra do vaso, fez uma máscara de Batman na cara das bonecas com o pilot preto dos irmãos.
No parque, queria subir nas árvores como os mais velhos. Não sendo "coisa de menina", a mãe segurava embaixo.
Pediu uma bola colorida e linda "igual a deles". Os pais não deram. Furou a dos dois.
No Natal, pediu um caminhão feito o do irmão mais velho, para correr puxando. Ganhou um joguinho de panelas, um fogãozinho lindo.
Pequenininha, bateu nos outros, que não queriam brincar com ela.
Quatro anos, um dia, no almoço, descobriu a explicação: pegou uma salsicha do prato e pendurou entre as pernas. Os pais riram até quase desabar, mas não entenderam nada.

Crime perfeito

Eliane F.C.Lima

Foi à delegacia se entregar. Contou a história ao delegado.
Quarentão, morava apenas com a mãe em uma vila em Botafogo. Cotidiano pequeno, mas seguro.
Morta aquela, viu-se só. Por pouco tempo. Sem ter planejado, conheceu uma mulher, não muito nova, na loja de discos. Papo agradável que só vendo!
Descobertas as afinidades, se amaram. Amor de fim de verão. Sem calores e muito aprazível.
Reformaram a casinha velha e tudo ficou na medida exata: saíam para trabalhar, encontravam-se no final da tarde, felizes. Bebiam vinho, ouviam suas músicas preferidas, viam seus filmes antigos. Perfeição absoluta.
Perfeição demais, pensou a sorte. A companheira teve uma pneumonia e se foi.
Sem a experiência de grandes emoções, viu-se no meio de um furacão. Passou por um estado de profunda depressão, amparado pela família herdada da mulher.
Meio recuperado, voltou para a solidão da casa de vila, onde chorava todos os dias, chamando pela que se foi.
Um dia, no quarto, viu-a, menos do que uma presença. Ela tinha vindo buscá-lo. Atravessara mundos para isso.
Apavorado, colado à parede, gritou "Não!" e desmaiou.
Quando acordou, nada havia. Ela tinha morrido para sempre. Ele a matara.

Fim de linha

Eliane F.C.Lima

Felicidade eterna de uma semana. Marido chega. Toda a rua ouve o arranca-rabo. Muito choro, muito grito. Pai, mãe, irmãs, irmãos. Agora família acredita. Mil olhos de vizinhos. O homem começa a se espalhar, quer quebrar, quer bater. Pai e irmãos, dentes, braços e punhos. O homem começa a apanhar.
O povo caminha aos tapas. Estação, trem parado. O irmão mais forte dá um pontapé: embarcam mala e marido.
(Capítulo do romance O Trem de Eliane F.C.Lima)

Marinha

Eliane F.C.Lima

Um navio bem negro, deslizando por um mar de chumbo. Um céu negro, borrado por nuvens mais negras. De repente, um apito do navio. Grito de dor tristíssimo? Tentativa de fazer-se luz?
Duras vagas, menos dinâmica que estátua, onde o navio desliza negramente. Negro céu, negro mar, negro navio. Lentamente avança, matéria rasgando matéria, esforço de locomoção. Mal se vê a forma. Mal se vê o movimento. Fantasma de fantasma. Quadro pintado, não fosse a frágil mudança.
Um raio de tempestade desesperadamente branco estilhaça em dois a paisagem ao fundo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Pequeno engano

Eliane F.C.Lima

Sempre ia a espetáculos de cantoras.
Extasiava-se. Não olhava, tirava fotografias com os olhos. Preferia as que andavam no palco, levantavam a platéia. Ela era assim.
Mas também olhava em volta, ligeiro sorriso. O público cantando, as palmas, alegria contagiada. Ninguém ficava parado. Com ela também era assim.
Seus espetáculos eram dados sempre à noite, luz apagada, seu quarto. Colocava o fone de ouvido, o disco girando no sonzinho barato: o palco se iluminava, a banda tocando atrás. Ia até perto da platéia, cantava para um, cantava para outra. Fazia turnês pela Europa, sempre em pé, perto da cama.
No dia a dia, emprego cansativo. Merendeira de escola. Ninguém sabia quem ela era. Quem era de verdade. Tinha nascido mesmo era para os palcos. Mas por um esquecimento bobo da sorte, cantava esganiçado, desafinando até em "Parabéns pra você." Tinha nascido sem voz.

Ingênua felicidade

Eliane F.C.Lima


O pequeno trouxe o filhote. Sujo e faminto. Depois do banho, a mãe:
- O bicho não pode ficar, filho. Nós moramos em um quarto.
Cinco anos, a carinha triste:
- Está bem. Eu já não tenho casa, não tenho pai. Posso também não ter um cachorro.
Lágrimas nos olhos, a viúva rendida à estratégia infantil: o cachorrinho ficou.

domingo, 20 de setembro de 2009

Lição

Eliane F.C.Lima

O que mais amava na vida: suas plantas. Tinha algumas numa varanda minúscula do apartamento em Copacabana. Uma jibóia subia pela grade da janela. Parecia parada, mas subia. A cada dia estava mais no alto. Nada a impedia. Obstáculo na frente, dava a volta.
Era a mudez das plantas, sua aparente estática, sua falta de emoção o que a encantava. Ficava horas tentando aprender sua filosofia. Ela, que era toda paixão.
Não conversava com as plantas, como outras pessoas. Não queria incomodá-las. Elas não eram de conversa. Eram um pouco como os gatos. Não, tinham o temperamento dos gatos elevado ao máximo.
Um dia, foi passear com amigos numa praia. E viu umas pedras pequenas, cabiam nas mãos. Brancas, roliças. Encantou-se com elas. Levou várias para casa.
Na varanda, agora, olhava as pedras. Aquilo é que era silêncio. Aquilo é que era falta de emoção. Não interagiam com ninguém, nem com o sol, nem com o vento. Não se molham pedras. Não se podam pedras. E elas nada devolviam, nem em cor, nem em flores. Não precisavam de nada.
Pedras são o âmago dos seres. Batidos no liquidificador e passados na peneira, joga-se o suco fora. Só o que presta é o bagaço.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O porta-retratos sobre o piano

Eliane F.C.Lima

Toninho era diferente de seus irmãos. Todos eram branquinhos, ele, moreninho. Todos eram robustos, ele, um graveto. Todos paradões. Toninho, a vida era pouca para ele. Puxou ao bisavô paterno. Diziam.
Quebrou a perna, um dedo da mão, costurou várias vezes a cabeça, teve dor de barriga feia: comeu fruta desconhecida.
No quintal, conhecia todos os buracos de formiga. Achava a minhoca mais escondida. Os cachorros andavam atrás feito sombras. Mal aparecia, rabinhos balançando, verdadeira adoração. Pois se o garoto era pura ternura!
É claro, Toninho morreu menino. Viveu mais do que qualquer um em menos tempo. E precisava ver, com urgência, o que havia no outro mundo.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

História malograda

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)

Meu nome é José. A noite passada tive um sonho horrível. E confuso. Um enredo impensável. O inconsciente inventa histórias impossíveis.
Sonhei que casava com uma menina linda, Maria. Tive um filho. Mas eu ia dar ao mundo esse meu filho mais amado. E isso me faria sofrer.
Depois de adulto, ele saiu de casa, abandonou a família. Passou a andar no meio de estranhos e a dizer coisas estranhas. Era seguido por muitas pessoas. Só amava um pequeno grupo, a quem tratava agora como sua verdadeira e única família. Eu e a mãe ficávamos muito tristes, porque ele parecia amar aos outros e não a nós. Achávamos ingratidão.
No final, e isso eu não consegui entender bem, ele repetia, claramente, para todo mundo, que seu pai era outro. E eu, que o havia criado como um filho dileto, fui impedido de estar perto dele, quando foi morto. No sonho, eu deixava de ser seu pai para sempre.
Acordei assustado. Será um aviso? Prometi a mim mesmo nunca me casar.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Acerto

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Sempre foi sozinha. Criada por uma tia velha, mal-humorada.
Fim da adolescência, tia morreu. Trabalhou em alguns lugares. Levava a vida como podia.
Fez um concurso, passou. Funcionária pública.
Mas o destino estava instalado. Não era convidada para festas. Não tinha comemoração.
Ultimamente, já aposentada e velha, falava sozinha na rua. Viam. Engano do mundo. Vingava-se da vida. Andava sempre cercada de amigos.

Surpresa noturna

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Não dormia direito há dias, desde que, numa noite, quarto escuro, vizinhos sossegados, caiu no sono. Lá para o meio da noite, um barulho estranho começou. Olho aberto, deitado ainda na cama, procurou identificar o que era. Nada.
Luz acesa, olha daqui, olha de lá. Barulho parado. Pensou que era sonho. Custou a dormir outra vez.
Sono engatado, lá vem o ruído de novo. Luz acesa, olha lá, olha aqui.
E foi assim durante toda a semana.
Naquela noite, ficou de tocaia. Não ia acender a luz. Não ia dormir. Dormiu.
Barulho chegado, zonzo, levantou no escuro, pé ante pé. Tropeção na cadeira. Canela doendo, acende a luz.
Dois olhos atônitos. Surpreso, um rato pequeno também queria saber que barulhão foi aquele.

Terceiro olho

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

A família sempre a achou meio desequilibrada. Tinha mania com a morte. Um dia, acordava e dava uma faxina nos armários, jogava um monte de coisas fora, "para não dar trabalho, quando morresse." Algumas vezes, teve de comprar de novo.
Com muito jeito, um amigo querido e diplomático conseguiu que ela procurasse um psicólogo.
Foi, a princípio, um pouco desconfiada. Depois adorou. Gostava do papo bom, sem compromisso. Conversava, desabafava, pagava e ia embora.
Convenceu-se, claro, de que a gente tem de se preparar para a vida. Comprou sofás novos, um armário grande para o quarto, trocou as cortinas, o fogão e a geladeira.
Morreu atropelada um mês depois, num lindo dia de sol, céu azul, a vida explodindo em todas as suas formas.

sábado, 29 de agosto de 2009

Ad aeternum

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)


As pessoas conversam baixo. Morte natural, idade avançada. Nada espetacular. Sofrimento para poucos. A maioria pensa na própria vida. Folga do trabalho não planejada. Melhor que feriado.
O mais feliz, no meio da sala, seria o morto finalmente para sempre liberto da dor, da angústia, do medo, da ânsia e dos hipócritas. Mas o morto jamais saberá disso.

Para voltar ao dia 29-08-2010, aniversário feliz deste blogue, vá por aqui.