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domingo, 12 de setembro de 2010

Dor concreta

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Gostaria de ser uma estátua de praça. Ver passar as pessoas apressadas. Ou ver os velhos ou os novos cansados, em busca de sombra, aquela moça lambendo um sorvete ou comento pipoca, sentados no banco de pedra fria, em volta de mim.
Ou uma estátua daqueles casarões antigos, num grande jardim, limpo e organizado, mas onde nunca se vê ninguém. Com certeza, haveria outras como eu e poderíamos nos sorrir, se estivéssemos sorrindo, ou nos olhar languidamente, se estivéssemos nos olhando.
Mas minha cabeça está voltada para baixo e minha mão esquerda pousada sobre o peito e a direita, levantada numa bênção. E meu rosto de anjo, concentrado e triste. Estou sentado à beira de um jazigo de uma família rica e tradicional. Mas isso não é bom. Há silêncio o tempo todo em volta de mim, a não ser quando toca aquele sino plangente e os cortejos vêm e passam por mim. Mas poucas vezes param. Porém, passando ou parando, sempre há lágrimas e desconsolo. Algumas pessoas têm de vir amparadas de tanta dor e desespero. E esses sentimentos me penetram e eu nem posso chorar. Petrificada nesse meu rosto bondoso, mas neutro, a solicitude de minha dor não pode ser notada e as pessoas passam por mim, recolhidas em seus sentimentos extremos e me devolvem a minha suposta indiferença.

Há um poema novo de minha autoria em Poema Vivo (link) e matéria nova sobre uma poeta em Literatura em vida 2 (link).

3 comentários:

Lórah Claus disse...

Belíssimo minha querida..
pude sentir os sentimentos petrificados dest estátua, e mesmo de carne e osso, as vezes somos indeferentes..

Grande abraço

Márcia Vilarinho disse...

Texto, como sempre, de brilhantismo ímpar, em metáforade primeira luz. Bjs.

ju rigoni disse...

Belo esse teu conto que dá pulso ao inanimado da reflexão...

Bjs, Eliane. E inté!