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domingo, 19 de setembro de 2010

Ser primitivo

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Espreme-se no vão do viaduto, trêmulo de frio, envolto no fino pano que encontrou no lixo.
Olha a água que escorre do concreto à sua frente. Uma poça incerta ameaça subir o pequeno degrau que a separa dele. Torce para que a chuva pare antes. O papelão onde está sentado já parece úmido. Ou está só frio?
Agora uma garoa leve, mas persistente e incômoda, peneira a paisagem, perturbada apenas por uma tênue claridade difusa, que deve vir de um poste bem distante. Tudo está muito escuro.
Os olhos, doídos, querem fechar, cansados. Não aguentam mais manter a vigilância do perigo. Feto adulto, pernas dobradas e braços enlaçados, tiritando, dorme.
E ouve. Lá fora, o barulho da chuva e do vento, que sacodem as imensas árvores em volta, inunda a alma de medo. Todas as ameaças estão lá, ele ser pequenino e indefeso, diante dos gigantescos animais, que vêm e vão, fazendo tremer o chão, seus urros e dentes, quando se enfurecem e enfrentam.
Mal começa a escurecer, sem outra chance de resguardo, todos os do bando entram em seus buracos nas pedras, cansados do pânico contínuo do dia. Não vivem, escapam da rotina de risco.
Em algum lugar de sua mente confusa e descontínua, abençoa, de qualquer modo, a natureza, mãe, que cavou aquelas rochas no meio do mundo hostil para que seus filhos sem proteção efetiva, como ele, pudessem se abrigar.
Sente, além do frio que a pele do animal que encontrou morto não consegue aplacar, fome. O que consegue comer de dia não é suficiente, enorme dificuldade de conseguir alimento, aumentada a probabilidade de dano naquele jogo insano do animal, mais frágil e desaparelhado, de atacar seus oponentes, débil separação entre ser caçador e ser caça.
Indiferente às desordenadas memórias do dia, as quais chegam e somem, do mesmo modo que vieram, tiritando, dorme.
Uma buzina de carro recompõe o viaduto.

Há postagem nova em meu blogue Poema Vivo (link). Visite também o Literatura em vida 2 (link).

3 comentários:

Graça disse...

Ah, esse ser primitivo!

Como é triste vê-lo, amiga!
O seu protótipo do homem-animal, do homem-bicho, o qual retratou tão bem nosso poeta Bandeira comoveu-me de maneira singular!
Seu conto é um verdadeiro quadro, minha amiga, que de tão real posso acompanhar todas as cenas descritas por você! E tecido e bordado por letras doídas e sofridas, como o frio e a fome do nosso personagem, porém sem pieguices nem apelações, mas de forma equilibrada, sem ser dura ou rude.
Perfeito.
Amei ler você hoje, e dou-lhe os parabéns por mais uma obra que encantou e agradou essa pessoa também das letras que nem tempo tem de colocar, hoje em dia, no papel, suas mais loucas ideias...

Um abraço grande, Eliane!
Obrigada por esse momento, por essa leitura tão agradável. Fiquei até com vontade de fazer um scrap desse conto...

ju rigoni disse...

Retrato terrível, doloroso. Conto
denso, pungente, perturbador.

Bjs, Eliane. E inté!

Marise Ribeiro disse...

Triste retrato da realidade, com a beleza metafórica de quem sabe descrevê-lo, tornando-o assim ainda mais pungente.
Parabéns, Eliane!
Bjs, Marise