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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Invulgar

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)

As calçadas estavam cobertas de flores lilases, que não se sentiam constrangidas por se esparramarem até o asfalto.
Na primavera – era primavera! –, as glicínias, que se estendiam por sobre todos os muros das casas, irreverentes e espaçosas, transbordavam para fora, tomando conta de tudo. O passante se sentia homenageado, tendo aquele tapete desdobrado para si.
A rua era famosa pelo colorido aveludado. Mas, nem por isso, abria mão de ser silenciosa e requintada. Vez ou outra passava um carro, caro, importado, da mesma gente que mantinha aqueles jardins cuidados, aquele silêncio perfumado e cromático.
Mas, nem por isso ainda, naquele dia, deixou de haver um corpo caído no meio das flores, atrevendo-se a manchar-lhes a suavidade lilás com seu vermelho impudico e derramado.
Mas não foi só: o atrevimento se estendeu aos carros de polícia que também ousaram quebrar o requinte estabelecido para veículos e vieram se postar ao longo do meio-fio. E violentaram o silêncio dos requintados com suas sirenes obscenas.
E houve mais: as fotos da imprensa, que se avolumou nas calçadas, em volta das árvores, encostando-se nos muros violáceos, que quase se encolhiam com a ousadia.
E aqueles pés, atrevidos, pela primeira vez, coagiram as flores lilases, ofendidas ante a surpresa da invasão.

Aguardo visitas em meus blogues Poema Vivo (aqui) e Literatura em vida 2 (aqui).

2 comentários:

Tais Luso disse...

Pois é, amiga, é a crueza da vida contada com elegância. Pouco adiantam todas estas flores e cores, não? A vida não muda seu percurso, apesar...

beijão, Eliane.

Marise Ribeiro disse...

É muito bom voltar a este espaço e encontrar seus invulgares contos. Adorei os três últimos que ainda não havia lido.
Beijos,
Marise