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domingo, 2 de janeiro de 2011

Parábola II

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Nasci rúcula. Uma sementinha foi semeada, com todo cuidado, junto de muitas outras, em um quadrado bem grande. Em outros quadrados, mais adiante, havia couves, hortelãs, alfaces, legumes e frutas. Uma variedade imensa.
Meu criador, às vezes, brincadeira de adulto, fazia enxertos, e criava outras espécies diferentes. E parecia muito orgulhoso com aquilo. Eu vi com estes olhos de rúcula. Pois nasci rúcula.
Fui regada todas as manhãs, bem cedo. Ele me pôs mais terra, quando já taludinha, meu caule parecia meio inseguro. Vinha sempre nos espiar, zeloso. E eu e todos os que estavam ali éramos muito agradecidos.
Mas muitas coisas difíceis aconteceram também: houve dias de sol inclemente, em que minhas folhas ficavam murchas e quase secavam. E dias de vento impiedoso, em que eu quase me desfolhava. E dias de uma chuva que caía sem condescendência e eu pensava que ia me afogar. Nessas ocasiões, eu quase me revoltava e me sentia arrependida de ter brotado, embora nada tivesse dependido de mim.
Mas aquele bondoso ser, que me cultivava com empenhos de pai, sempre vinha, muito preocupado conosco, todas as hortaliças acreditavam, com seus coraçõezinhos mortos de medo, mas reconhecidos. E nos cobria com imensos toldos, já preparados para a ocasião.
Eu reparava, no entanto, com esse entendimento meio curto e verde de rúcula, que, de vez em quando, uma amiguinha minha sumia. Fiquei muito triste, quando, ao acordar, a melhor delas, a que eu mais gostava, e para a qual tinha preparado meu bom-dia, não estava ali. Isso era um grande mistério.
Também acontecia isso, com as galinhas, seres que andavam de um lado para o outro, dentro de um quadrado fechado, e eram muito barulhentas. Sempre depois que elas faziam um berreiro enorme, campeonato de quem dava gritos mais altos. Como era longe, eu nunca sabia o que estava realmente acontecendo.
Hoje sei: estou em cima de uma pedra branca e vejo pedaços de tomates e pedaços de um monte de outros, que ainda ontem tremulavam sob a brisa lá fora, em seus quadrados, agora, dentro de um pequeno objeto de vidro. Acho que germinamos e cacarejamos todos para gáudio de nosso hortelão. Porém sou só uma pobre e indefesa rúcula, com seu julgamento tão parco. Fechando os olhos aflitos, ainda confio nele e imagino que ele sabe o que faz.

(Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)


"parábola1
[Do lat. parabola < gr. parabolé.] S. f. 1. Narração alegórica na qual o conjunto de elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior... " (Dicionário Aurélio - Século XXI - versão digital)

"(pa.rá.bo.la)
sf.
1 Narrativa alegórica que evoca, por comparação, valores de ordem superior, encerra lições de vida e pode conter preceitos morais ou religiosos." (Aulete - dicionário digital)



Convido o visitante deste blogue a ir a Poema Vivo (por aqui), onde há um novo conto meu e a Literatura em vida 2 (o caminho é esse).

Estou ainda em:
1.
Debates Culturais, onde passo, agora a publicar alguns artigos, bastando um clique, na lista "Colunistas", à direita, em Eliane Lima (link).
2
.
Recanto das Letras (aqui).
3. Portal Literal (aqui).
4.
Alma de Poeta (aqui).

5 comentários:

Mara faturi disse...

Que maravilha começar o ano assim...lendo teu texto; DELÍCIA!!!!
Fiquei com dó de comer rúcula agora, rsrs ( eu adoro rúcula), hoje ainda mais!!!
Obrigada pelas visitas e comentários no Per-tempus, é uma alegria e honra ter vc por lá;))
Bjo grande!

Guidinha Pinto disse...

Senti-me tal e qual a comentadora anterior, com pena dessa rúcula crente no homem que a criou até ao fim ... Sempre que for comer rúcula vou lembrar-me da sua estória.
Um mimo lê-la.
Desejo-lhe um Ano Bom.
Beijo

NDORETTO disse...

Olá!

Com que alegria leio contos que louvam a verdura! Certo que nos toca o coração...mas e aí? Mato salada ou escrevo poesia?
Sou amiga da Mara Faturi e vim pela feliz indicação.

Obrigada
Neusa

http://poesiarapida.blogspot.com/

Márcia Vilarinho disse...

Como sempre, texto perfeito em termos de simbologia e sabedoria. Feliz ano novo sempre. Abraços

ju rigoni disse...

Que maravilha, Eliane!

Um conto a escancarar a verdade das relações entre criador e criaturas. O interesse por detrás do cuidado.

Lógico é só uma salada da minha interpretação, - do que ocorreu em minha mente torta enquanto lia...

Bjs, amiga. E inté!