Pesquisar este blog

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Linha do tempo

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Não era apego ao material. Pelo contrário. É que cada objeto tinha impresso em si uma lembrança, uma parte do passado. Como uma tatuagem. Alguns, uma cicatriz. Jogar fora era arrancar um pedaço da vida.
Um dia decidia que ia se livrar de alguns. Comprar coisas novas, redecorar a sala ou o quarto ou o escritório. Mas levava muito tempo com um deles na mão: e vinham os trinta anos, os amigos, uma festa de fim de ano, quando tinha dançado com Margarida, rolaram até uns beijos. Como não sentir saudade dela? Ingratidão jogar fora aquilo... e Margarida junto. Não.
Depois vinha um quadro pequeno na parede. Fontenele, o grande Fontenele, contador de histórias incríveis. Quando vinha à sua casa, olhava para a paisagem e lembrava de um monte de acontecimentos. Terminavam rindo muito e quase bêbados de tanto vinho. Sem solução: Fontenele ficava.
E a caixinha de madeira de clipes, rapaz, como era velha! Do tempo de colégio. Embevecido, ia sentando na cadeira do escritório, sem sentir, olhos fixos no nada, boca aberta, sorrindo para Janu – o velho Januário, que saudade! –, para Cidinha, tão magrinha e morena, aquelas tranças, mas era uma ferinha, não mexessem com ela, louca para namorar o Janu, que só tinha olhos para a Verusca, toda gostosona, uma cinturinha de vespa, umas cadeiras enlouquecedoras, todo mundo, em resumo, estava a fim da Verusca, não só ele, ora bolas! Metida que só ela, a menina só falava em um tal de Luís Felipe, que namorava. E todo mundo tinha ódio do Luís Felipe, que ninguém conhecia. Agora se recordava com saudade até dele.
A turma toda guardada dentro da caixinha, um beijo carinhoso nela a recolocava no mesmo lugar.
Quando os olhos batiam, então, no jarro de madeira envernizada ficavam logo marejados de lágrimas. Com ele, estilhaçando o vidro da janela, Tânia tinha posto ponto final no casamento. Tinha feito tudo para fazer as pazes com ela, recompor o relacionamento, mas era tarde. A mulher havia achado logo outro interessadíssimo, que ela era um mulherão de não se jogar fora, ele é que tinha sido um idiota de ficar flertando com aquela tal a noite toda no aniversário de casamento do Álvaro. Estava farto de saber como sua mulher era ciumenta.
Quinze anos se passaram e Tânia nunca mais o perdoou. Também foi morar na Espanha com o novo marido.
O jarro voltou para o alto da estante, testemunha muda de sua tolice e sofrimento. E de que, em última análise, todo mundo é um pouco masoquista.


4 comentários:

Sônia Silva disse...

Bom texto, na verdade nós somos em potencial o bom e o mau, fazemos o bem e fazemos o mal. Como minha mãe dizia que a ocasião que faz o monge.

Boa noite

ju rigoni disse...

Entre trecos e traças, saudades ou, a penas, lembranças,... Memória que nos resgata e põe em frente ao espelho. A gente vê, - todo mundo vê -, mas não nota. Mirandum o mirundum...

Delícia de conto, mestra. Bjs e inté!

Marise Ribeiro disse...

Querida amiga, retornando ao mundinho virtual, agora com o meu navegador atualizado, me vi um pouco neste seu maravilhoso conto. Algumas vezes, resolvo me desapegar de objetos e não consigo, tantas são as lembranças que eles me trazem. Gostaria de ser mais objetiva, mas meu olhar interior se desviou e passou a enxergar poesia em cada pedaço de lembrança.
Beijos e Parabéns pelo texto!
Marise

Mara faturi disse...

E o que falar??!!
Fico aqui lembrando do "jarro"...
Confesso, tb sou um tanto masoquista;))
belíssimo conto!
Bjo grande!