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domingo, 5 de dezembro de 2010

Fluminis

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Sempre sentava à beira do rio na parte da tarde, até começar a escurecer ou os mosquitos chegarem. Naquele dia, não foi diferente. Ou foi.
Dentro d'água havia algo como uma água-viva, mas não era mar, era rio. Algo como uma bola de cristal, mas boiava. Transparente e leve.
Meteu a mão por baixo, meio a medo. E venho trazendo para cima, devagar.
O sol bateu em cheio. E brilhou, em mil cores de cristal. Mas redonda.
Não sabia o motivo, mas a pele dos braços estava arrepiada. E os cabelos também.
E maravilhada viu que a luz não caía do sol sobre ela, mas subia daquilo para o sol. Ia subindo por um caminho aéreo, como milhões de partículas – douradas, azuis, esverdeadas, levemente rosas, brancas, transparentes? – e não via mais o seu começo. Perdido no espaço, os olhos ofuscados pela claridade da luz do sol ou daquilo.
Deslumbrada e, ao mesmo tempo, com muito susto, foi colocando a água-viva, bola de cristal, redondeza brilhante e leve – percebeu, sem consciência, que afinal não tinha peso – no chão. E sua mão ainda ficou cheia das partículas da estranha purpurina – que outro nome dar àquilo?
Mas a coisa estranha não baixou ao chão. Ficou meio levitando sobre o ar. E, em volta, nada se via bem, como em um dia de verão intenso, o clarão do sol apaga todas as formas.
Ela enxergou, porém, no brilho que subia uma forma de escada. E levantou o pé, toda indecisa, levada, entretanto, por um desejo sem nome. E foi, de degrau dourado e azul e esverdeado e levemente rosa e branco e transparente em degrau dourado e azul e esverdeado e levemente rosa e branco e transparente, subindo, já, ela mesma, água-viva, bola de cristal.
O pescador que chegou logo depois não viu nada.
(Conto registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)


Convido o visitante deste blogue a ir a Poema Vivo (por aqui) e a Literatura em vida 2 (o caminho é esse).

Estou ainda em:
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Debates Culturais, onde passo, agora a publicar alguns artigos, bastando um clique, na lista "Colunistas", à direita, em Eliane Lima (link). 2.
Recanto das Letras (aqui).
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domingo, 28 de novembro de 2010

Terceiro olho

Enquanto não recebo meus novos contos registrados, trago de volta textos do princípio do blogue e ainda pouco lidos.

Eliane F.C.Lima
(Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

A família sempre a achou meio desequilibrada. Tinha mania com a morte. Um dia, acordava e dava uma faxina nos armários, jogava um monte de coisas fora, "para não dar trabalho, quando morresse." Algumas vezes, teve de comprar de novo.
Com muito jeito, um amigo querido e diplomático conseguiu que ela procurasse um psicólogo.
Foi, a princípio, um pouco desconfiada. Depois adorou. Gostava do papo bom, sem compromisso. Conversava, desabafava, pagava e ia embora.
Convenceu-se, claro, de que a gente tem de se preparar para a vida. Comprou sofás novos, um armário grande para o quarto, trocou as cortinas, o fogão e a geladeira.
Morreu atropelada um mês depois, num lindo dia de sol, céu azul, a vida explodindo em todas as suas formas.
(Registrado no Escritório de Direitos Autorais, RJ, como todos os textos aqui postados).

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domingo, 21 de novembro de 2010

A cor do tempo

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Arrumando a prateleira de cima do enorme armário para fazer lugar para o enxoval da filha noiva, topou com uma caixa de madeira dos tempos de meninota, lá pelos vinte anos. Lá dentro, junto com dúzias de papéis, retratos, clipes e não sei mais o quê, um envelope amarelado.
Antes de abrir, começou a lembrar. Havia tido um relacionamento firme, na adolescência, coisa de muitos anos, quase noiva. Adorava o moço, tinha uma paixão enorme e desejava se casar e passar sua vida com ele. Não o ter a seu lado não passava por sua cabeça loucamente enamorada.
Um dia, o namorado, que sempre parecera fiel e sério, começou a mudar. Pediu para desmancharem o compromisso. Ela não entendeu logo, não acreditou, mas, finalmente, começou a chorar muito, queria saber o motivo. Ele andou falando em liberdade.
Ficou doente, emagreceu muito. Quando ele soube, apareceu correndo, muitos abraços e beijos, pedidos de perdão. Não adiantava, era a ela que ele amava.
O namoro correu nos trilhos mais seis meses. De novo, ele queria escapulir. Dizia que ia casar com ela, certamente, mas precisava, antes, conhecer pessoas novas, para estar firme, quando dissesse “sim”. Nova doença, novas voltas.
Até que recebeu a carta. O rompimento era definitivo. Não adiantava. Ele pretendia cumprir o que tinha determinado. Para se assegurar disso, estava se mudando para a casa do padrinho, um bairro distante e desconhecido dela. Que ela não o procurasse. Era o fim.
Magoada, para a garota o mundo tinha desabado. Não conseguia estudar direito, comer, ver televisão, nem ler, ela que adorava livros. Viveu como morta-viva. Muitos meses, atraída por coisa nenhuma. Lia a carta muitas vezes e chorava outras tantas. Guardou-a, certa de que o amor, como a carta seria testemunha, era para sempre.
Entretanto, como o tempo impera e a pouca idade ajuda, as coisas foram se ajeitando. Os anos se passaram. Namorou diversas vezes, casou, divorciou e agora estava ali, já cinquentona, arrumando o armário.
Abriu o envelope e a carta. Leu com rapidez. E caiu na gargalhada, por pensar que aquilo lhe causava tanta emoção, agora, quanto o manual para se ligar o aparelho de DVD, que tinha comprado há duas emanas. Como é que podia! Era a mesma grafia, eram as mesmas palavras. No entanto parecia que haveria um espírito, que se apossa de um texto em uma determinada época, e que tinha se evadido.
Olhos postos no papel já cansado, mudando de cor, entendeu que o fugitivo era o sentimento antigo, escritor cativante e talentoso, que escrevia, ele, sim, com suas emoções, as palavras de outro. O que havia desaparecido, e para sempre, era a amarelecida e irrecuperável menina do passado.

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domingo, 14 de novembro de 2010

Transcendência

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

-Me passe aí a batata frita, Honey.
A moça morreu de raiva daquele inglês idiota e fora de hora. Cara bobo! Detestava homem ridículo!
Cada vez que se dirigia a ela, lá vinha outro “Baby”. Ela fingia que não tinha ouvido no meio da balbúrdia dos amigos, todos cheios de animação e chope. No terceiro “Dear”, levantou-se e foi ao banheiro.
Lavando as mãos, ia ponderando: não entendia como o pessoal aguentava aquele cara. Seria amigo de quem? E todos falavam com ele, com consideração, bem que via. Aquilo era um mistério. O tal era um bobalhão, vocabulário de conquistador barato e antigo.
Quando voltou, sentou-se em outro lugar bem longe dele. Solução perfeita.
Num momento, porém, em que voltou a olhar para aquela ponta da mesa, reparou que o rapaz estava meio ausente, olhos no ar. Em seguida, procurou um guardanapo de papel, meio aflito, tirou uma caneta do bolso e pôs-se a escrever. Leu para si, consertou alguma coisa e mostrou, finalmente, para a garota do lado. Ela leu, sorriu em êxtase, jogou para ele uns olhos enormes e acenou para todos os lados, pedindo silêncio. E conseguiu, sem o menor esforço, como se todos esperassem por aquilo.
E Vivinha – era o apelido da primeira e entediada moça – ouviu o poema mais milagroso e ousado e perfeito de sua vida, enquanto se levantava, sonâmbula, e ia caminhando, desejando uma cadeira vaga em frente ao poeta.



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sábado, 6 de novembro de 2010

O filho do lobisomem

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Havia um grande boato sobre um lobisomem, rondando, à noite. Um disse me disse, um viu aqui, o outro, acolá, ferrolhos na porta, mal escurecia, mesas ajudando a trancar.

Uma noite, um deu um tiro no breu, duas botucas vermelhas, olhando, dizia. O bicho sumiu para sempre.
Nessa mesma noite, sem mais nem menos, o pai de Honório, depois que todos dormiram, pegou suas roupas e se foi, sem acordar a mulher. Já andava falando em cidade grande há algum tempo.
O povo juntou tudo e garantiu que ele era o lobisomem morto, por mais que a mulher mostrasse as roupas sumidas.
Honório herdou o destino. Meio sorumbático desde menino pela saudade do pai, as pessoas fugiam dele. “Andar de noite, nem pensar”, implorava a mãe. Um vivente corre menos perigo em uma megalópole do que em estúpido lugarejo do interior.
Não namorava, não dançava em festas. Se chegasse à quermesse da igreja com a mãe, o pessoal ia arredando, mudando de barraca. O pobre, sem jeito, desistia e ia embora.
Até que chegou ao local uma mulher, cabelos até os ombros, alguns fios brancos. Pensãozinha no banco, muito sisuda e viúva, também do interior, não dava trela a vizinho, ciosa de sua reputação e da língua alheia. Vivia trancada em casa.
Mas falaram... e não foi de sua honradez. As conversas eram agora sobre uma bruxa que havia na cidade: ela.
O destino, porém, que não quer saber de mitos folclóricos, levou Honório para capinar o terreno de Alzira – a feiticeira –, sem emprego fixo, o coitado, por pura rejeição de todos. E trocou telhas e pintou a casa e acabaram se amando.
No casamento, a mãe dele, madrinha, uns poucos primos e primas de outra cidade. E o padre, muito aliviado e abençoando o casal.
A cidade, contudo, ainda tinha munição: o assunto então era a dúvida sobre que tipo de tinhoso iria nascer dos dois.



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domingo, 24 de outubro de 2010

Vida cara

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Sentada na cama, as tralhas ensacadas. Lágrimas, não há mais. O rosto inchado, apenas observa em volta. Tarefa simples: um armário de duas portas, dentro do cubículo. Calor insuportável no verão; umidade entrando nos ossos no inverno.
Tinha criado a filha com muito esforço, solteira, ingênua que fora. Nunca se queixou. A menina enchia-lhe a vida. Pobre, muita faxina tinha alimentado suas bocas, pago seu quartinho, a roupa pouca, os livros da pequena. Estudo reduzido, mas muita honradez ensinada pela mãe.
Não tinha podido garantir sua velhice, contudo. Sobrava dinheiro para isso? A mocinha casara cedo, felizmente. Marido era um homem honesto, trabalhador. Nada faltava em casa. Mas sempre renegara a herança da mulher: a mãe.
Naqueles anos todos, ela, “a velha”, como ele dizia, sem o menor acanhamento, tinha feito tudo para agradar ao genro: lavava as roupas dele, passava com carinho para ver se merecia ao menos consideração. Nada. O homem dizia que aquilo nem correspondia à parte do feijão comido. E o resto? Quarto – quarto? –, luz, água e tudo o mais? Que sina a dele ter de trabalhar o dobro para sustentar boca adicional!
A filha, muito submissa, reclamava no quarto, à noite. As vozes se alteravam. A senhora se encolhia toda na cama.
No dia seguinte, a própria mãe abraçava a outra, ambas lacrimosas, e aconselhava que não fizesse aquilo, imagine, atrapalhar sua felicidade. Os homens eram assim mesmo... e onde iria achar outro tão bom, cumpridor de seus deveres? A moça tentava acreditar.
Agora ele tinha decidido e arranjado tudo. Descoberta uma prima dela, velha também e doente, no interior, tão longe, despachava a sogra para lá.
Saindo pela boca, já, a saudade de sua menina. Mas conformava-se, pensando que libertava a filha para ser feliz. Fosse o que fosse, nunca mais a moça engoliria aqueles desaforos e, afinal – deu um suspiro fundo –, a prima era uma pessoa boa e pacata.
Um “Mãe, tá na hora”, resgatou-a dos devaneios. Levantou-se, condenado à morte, convocado por guardas e padre que lhe batem à porta.

Convido meus leitores a meu blogue Literatura em vida 2 (link) e Poema Vivo (link). Estou ainda em Debates Culturais (link), onde passo, agora a publicar alguns artigos, bastando um clique, na lista "Colunistas", à direita, em Eliane Lima. Recomendo ainda, nesse mesmo endereço, a excelente Cintia Barreto, além de todos os outros.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Invencível batalha

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Intrépido era o adjetivo que classificava aquele homem. Nascido na Idade Média, seria cavaleiro heroico de algum rei conquistador.
Tinha nascido, porém, no século XX, vida de cidade moderna e grande.
Defrontava-se, mesmo assim, com muitas batalhas, principalmente as sociais. Talvez até mais acirradas. Não se via o inimigo, quando era o próprio Estado, por exemplo, ferindo seus direitos. Mas não se intimidava, procurando as vias legais ou levando seus concidadãos para as ruas, se necessário. Enfrentou a polícia, seguidamente, braço armado do stablishment para manter-se stablishment. Era um corajoso líder.
E até na vida pessoal. Não ficava quieto, se o síndico do prédio ou algum vizinho, ou qualquer um, seja dita a verdade, lhe faltasse com a devida consideração. Nunca levou desaforo para casa. Direito era direito.
Não que fosse um sujeito de perder as estribeiras, afeito a brigas. Não. Era até muito ponderado, tentando fazer o outro entender o erro cometido. Mas até um limite. Daí para a frente, agia conforme o preciso, embora sem perder as rédeas de seus atos.
Naquelas férias, meio cansado da lide urbana, tinha ido para a casa de uns amigos, localidade rural, mato para todo o lado, pouca gente e muito silêncio. Ideal para um recompor-se, beber vinho à noite, conversar muito, dormir cedo e acordar mais cedo ainda, cheiro de mato molhado de sereno, entrando pelas narinas. Surpreender o sol saindo de sua cama.
Boca ainda cheirando a café com leite e bolo de milho, resolveu passear pelos matos.
E foi andando, descobrindo pequenas trilhas feitas por outros pés curiosos, florezinhas sem pedigree, mas com muitas cores e graças, juntinho ao rosto.
Até que, de repente, a vegetação cerrada abriu e o caminhozinho ladeou uma várzea não imaginada. E viu o único adversário que temia nessa vida: um boi. Aliás, vários deles, amontoados, pastando, sua boca mole para lá e para cá. E seus chifres.
Um deles o olhou tão surpreendido quanto o homem. Continuou, no entanto, seu processo de movimentar o queixo, sem perdê-lo de vista. Ele fez o mesmo, por sua vez.
Estando aqueles a distância, reuniu toda a sua coragem e continuou pela trilha, o olho firme, porém, para o boi.
Dez metros adiante, quando volta a cabeça, finalmente, para a frente, todo o pelo que tinha no corpo se eriçou: pela mesma minúscula vereda, um boi atrasado vinha trotando.
Sem ter onde se esconder, puro instinto, descarga de adrenalina enchendo suas artérias, virou-se de costas e voltou, caminhando o mais depressa que podia, sem correr, para não estimular o terrível animal a fazer o mesmo. Em nenhum momento olhou para trás, cuidado para não desafiar o opositor.
Só parou na segurança do portãozinho familiar e amigo, muito tempo depois, vista escura, pernas bambas. Por sorte, naqueles ermos não tinha topado com vivalma. Mesmo a pessoa mais heroica sempre encontra um desafeto impossível de enfrentar.



domingo, 10 de outubro de 2010

Parceria certa

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Tinha um velho sonho: escrever, pelo menos um conto. Quando menina, fazia belos textos, muito elogiados pelos professores.
O destino, brincalhão, no entanto, tinha trançado outros planos. Muita coisa, muita coisa mesmo tinha acontecido. Se fosse examinar sua vida, veria que a agulha do destino tinha ido de uma ponta a outra, e voltado para a primeira posição, e andado de novo para o outro extremo, e para lá e para cá. Mas ia beirando os sessenta e nunca tinha escrito conto algum.
Há uns três anos, o ímpeto da infância retornou. Pegava uma folha, ficava horas pensando e nada. Já tinha começado até uns rabiscos, mas ficava só nisso. Lia, embolava e ia fazer outra coisa. Frustrada.
E cada vez a sensação aumentava. Parecia que havia alguém crescendo dentro dela. Grávida de um conto: uma narrativa à espreita.
Apanhados papel e caneta, aquele ser interno se encolhia, se amedrontava. Mas era algo forte, um delírio. Que sumia, entre a mente e a folha, pálida, sobre a mesa, qual adolescente esposa medieval, tomada pela lascívia, deitada em confortável alcova com o esposo, branco e velho marquês impotente.
Um dia resolveu relatar exatamente aquele sofrimento. Sem grandes expectativas, deixando a mão deslizar, escreveu: “Tenho um velho sonho: escrever, pelo menos um conto. Quando menina, fazia belos textos, muito elogiados pelos professores. O destino, brincalhão, no entanto, trançou outros planos...”.
Encheu três folhas nervosas, sem interrupção, o esposo substituído, agora, sobre a palha, por um jovem cavalariço moreno.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A chave do destino

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Sem emprego, lugar sem recurso, capinava terrenos por encomenda, não fosse morrer de fome.
Num desses, bem cedinho, a enxada bateu em algo duro. Uma pedra? Viu uma ponta acinzentada. Curioso, desencavou. Dentro duma caixa de ferro bastante enferrujada, uma chave esquisita.
Deu tratos à bola: devia ser da porta da casa. Precaução: o dono, se perdesse a chave de uso, garantia entrar, mas com cautela. Casa? Que casa? Terreno baldio, vendido pela primeira vez. Pelo aspecto da caixa, estaria ali há mais de cinquenta anos. Sacudiu a cabeça, sem entender. Deixou a caixa no mesmo lugar, terra em cima.
Continuou sua labuta. Suor por todo o lado. Mas o trabalho ia avançando.
Depois do almoço, corpo sentado sobre pedra grande, marmita comida, lembrou recomendação do dono: apartar a pedra para um canto do terreno. Ia descansar um pouco, porém.
Pensou na ingratidão da vida. Ia para os quarenta. Músculos fortes de tanta capina. Mas inteligente. Adolescente, muitos sonhos. Ia ganhar o mundo. Ganhou aquela enxada, garantia de comida na mesa. Acariciou sua “bichinha”, como chamava.
Espantou a filosofia e a tristeza. Reuniu toda a valentia. Primeiro arrastão, a pesada nem se mexeu. Não saía. Depois de muitas tentativas, já enfurecido. Mexia com sua honra de homem.
Viu que estava travada por uma ponta. Mudou a rota do empurrão e ela andou com facilidade. Então era isso, continuava forte.
Com a enxada, cavucou em volta da ponta. Outro objeto de ferro. Com uma série de golpes, foi afundando o buraco: um cofre, meio metro de comprimento.
Então seu cérebro se iluminou: a chave! Tremendo, concentrou-se todo para saber onde tinha enterrado de novo.
Passou grande parte da tarde, escavando, aflito, coração aos pulos. E se o dono viesse conferir o trabalho? Era dono do terreno, não do cofre. Finalmente achou.
Já anoitecendo, terreno todo limpo, buracos tampados, saiu, empurrando seu carrinho de mão, chave bem guardada no bolso, cofre coberto com sacos velhos voados de longe, enxada cuidadosa por cima.
Guardado tudo em casa, foi receber seu pagamento do trabalho. Era o que faria um homem sem cofre.

Aguardo a todos em Literatura em vida 2 (link) e Poema Vivo (link).

domingo, 26 de setembro de 2010

Fraternidade

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Muitas janelas abertas, os curiosos, mas consternados vizinhos, observavam o caixão que saía. Só, Matilde, decidida, embora de olhos vermelhos, comandava tudo. Fechou a porta e entrou na frente do rabecão. O carro saiu devagar, apesar de ninguém seguir atrás.
Sentada no banco do veículo, silenciosa, tentava pensar no que estava acontecendo. Há quarenta anos era empregada de Lurdes. Empregada nada, eram amigas. Sabia tudo sobre a vida da outra e a outra, sobre a dela. Eram mais do que irmãs. Seu corpo todo doía agora, refletindo a perda da companheira, anunciada, mas, de qualquer modo, uma surpresa. Estava atônita, perdida, apesar de ter feito tudo o que tinha de fazer, sua responsabilidade de anos. Ainda não acreditava. Como seria na volta, quando abrisse a porta?
Lurdes sempre ensinava, instruía. Aos poucos, Matilde foi ficando mais atilada. A doente tinha planejado tudo, deixadas as providências tomadas. Havia um dinheirinho, aplicado, para o enterro e para que ela, a empregada, pudesse viver sem largueza, embora dignamente. Em termos práticos, estava garantida. Até a casa seria sua, passada em testamento. Aquela velha casa, simples e querida, era uma versão da amiga que ia agora morar em lugar diferente. Sem ela – e a mulher enxugou as lágrimas sob os óculos. Nenhum bem, entretanto, encheria o palacete vazio, cheio de ecos e cantos escuros, que era, agora, o seu coração.
Refletia sobre o que ainda ia enfrentar: separar-se do único ente querido que tinha, que lá ficaria. E voltar para casa e não ver a outra, ouvir sua voz já bem fraca nos últimos dias, porém ainda alegre e positiva. Lurdes repetia: “Você não fica sozinha, Matilde. Esta casa está repleta de anjos. Meus guias – são muitos, vejo todos eles agora, me sorrindo – vão se dividir e ficam alguns com você. Olhe só, eles concordaram. Vão ficar alguns, porque nós já somos uma só. E há os seus também. Uns bem bonitos.”
E a boa mulher, sacolejando no carro, ia se consolando, relembrando tudo. Afinal, o grande palacete de seu peito não ia ficar tão vazio, tinha mesmo de arranjar espaço para tanta gente. A boca quase sorriu, enquanto os olhos iam transbordando lágrimas.

Espero você em Poema Vivo (este é o caminho) e em Literatura em vida 2 para ler minha nova postagem (aqui).

domingo, 19 de setembro de 2010

Ser primitivo

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Espreme-se no vão do viaduto, trêmulo de frio, envolto no fino pano que encontrou no lixo.
Olha a água que escorre do concreto à sua frente. Uma poça incerta ameaça subir o pequeno degrau que a separa dele. Torce para que a chuva pare antes. O papelão onde está sentado já parece úmido. Ou está só frio?
Agora uma garoa leve, mas persistente e incômoda, peneira a paisagem, perturbada apenas por uma tênue claridade difusa, que deve vir de um poste bem distante. Tudo está muito escuro.
Os olhos, doídos, querem fechar, cansados. Não aguentam mais manter a vigilância do perigo. Feto adulto, pernas dobradas e braços enlaçados, tiritando, dorme.
E ouve. Lá fora, o barulho da chuva e do vento, que sacodem as imensas árvores em volta, inunda a alma de medo. Todas as ameaças estão lá, ele ser pequenino e indefeso, diante dos gigantescos animais, que vêm e vão, fazendo tremer o chão, seus urros e dentes, quando se enfurecem e enfrentam.
Mal começa a escurecer, sem outra chance de resguardo, todos os do bando entram em seus buracos nas pedras, cansados do pânico contínuo do dia. Não vivem, escapam da rotina de risco.
Em algum lugar de sua mente confusa e descontínua, abençoa, de qualquer modo, a natureza, mãe, que cavou aquelas rochas no meio do mundo hostil para que seus filhos sem proteção efetiva, como ele, pudessem se abrigar.
Sente, além do frio que a pele do animal que encontrou morto não consegue aplacar, fome. O que consegue comer de dia não é suficiente, enorme dificuldade de conseguir alimento, aumentada a probabilidade de dano naquele jogo insano do animal, mais frágil e desaparelhado, de atacar seus oponentes, débil separação entre ser caçador e ser caça.
Indiferente às desordenadas memórias do dia, as quais chegam e somem, do mesmo modo que vieram, tiritando, dorme.
Uma buzina de carro recompõe o viaduto.

Há postagem nova em meu blogue Poema Vivo (link). Visite também o Literatura em vida 2 (link).

domingo, 12 de setembro de 2010

Dor concreta

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Gostaria de ser uma estátua de praça. Ver passar as pessoas apressadas. Ou ver os velhos ou os novos cansados, em busca de sombra, aquela moça lambendo um sorvete ou comento pipoca, sentados no banco de pedra fria, em volta de mim.
Ou uma estátua daqueles casarões antigos, num grande jardim, limpo e organizado, mas onde nunca se vê ninguém. Com certeza, haveria outras como eu e poderíamos nos sorrir, se estivéssemos sorrindo, ou nos olhar languidamente, se estivéssemos nos olhando.
Mas minha cabeça está voltada para baixo e minha mão esquerda pousada sobre o peito e a direita, levantada numa bênção. E meu rosto de anjo, concentrado e triste. Estou sentado à beira de um jazigo de uma família rica e tradicional. Mas isso não é bom. Há silêncio o tempo todo em volta de mim, a não ser quando toca aquele sino plangente e os cortejos vêm e passam por mim. Mas poucas vezes param. Porém, passando ou parando, sempre há lágrimas e desconsolo. Algumas pessoas têm de vir amparadas de tanta dor e desespero. E esses sentimentos me penetram e eu nem posso chorar. Petrificada nesse meu rosto bondoso, mas neutro, a solicitude de minha dor não pode ser notada e as pessoas passam por mim, recolhidas em seus sentimentos extremos e me devolvem a minha suposta indiferença.

Há um poema novo de minha autoria em Poema Vivo (link) e matéria nova sobre uma poeta em Literatura em vida 2 (link).

domingo, 5 de setembro de 2010

Retrato falado

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Todos os dias de manhã, me sento nesta cadeira, em minha varandinha, e olho lá para baixo, para a rua.
Vejo passar uma estudante com o cabelo preso. Tem uma rede delicada em volta desse coque. Embora leve uma mochila às costas, esteja de uniforme de escola, concluo que irá aprender balé após a aula. E a imagino junto com outras mocinhas, mão na barra, um braço curvo para o alto, pernas ora arqueadas, ora retas, fazendo os exercícios que uma mulher, madura e branca, leve sotaque de estrangeira, vai fiscalizando, corrigindo, tudo com uma vareta na mão.
Depois dela, passa uma mulher grávida, com dois meninos correndo na frente. Ela puxa as maletas da escola deles. Caminha devagar e, de vez em quando, grita para que parem e esperem. Seu andar é pesado. Passam sempre à mesma hora.
E eles são sempre ultrapassados por um homem de sapatos... e terno. É grave, mas apressado e caminha com passos largos, uma maleta na mão. Vai esbaforido. Por que ele não acorda mais cedo para poder caminhar com calma e ir em paz?
Os dois meninos param, invariavelmente, na banca de um velhinho de voz frágil, que vende docinhos. A mãe, um pouco atrás, faz com a mão que eles sigam, depois fala, mas eles não arredam pé e ela acaba comprando uma bobagenzinha para cada um. E lá vão eles, cada um guiando seu carro imaginário, que acelera e freia a toda hora, o barulho do motor roncando nos lábios.
Vejo também três mulheres, que vão rindo muito e contando casos. Acho que são vizinhas ou trabalham juntas e há sempre muita história para relembrar. Esperam o ônibus no ponto adiante.
Fico ali na primeira parte da manhã. E sei cada detalhe, cada voz. Há um ano que me sento. As pessoas são sempre as mesmas, a mesma rotina, a mesma expectativa de antes. É um quadro que se movimenta, que tem ruído e vida, mas está fixado em minha memória desde então. Ele muda sem mudar.
Às nove e meia, Juçara me chama com sua voz doce e firme. O lanche está pronto. Vejo a mesa: o leite fumegante, uma cafeteira que cheira até a sala, um bolo – hoje é de milho – quentinho, que saiu do forno. E o queijo, na bandeja de louça de flores azuis. Guiado pelo aroma, levanto com cuidado, me apoio na minha bengala, tão companheira, que vou balançando levemente, para a direita e para a esquerda, nesse caminho que visualizo com a imaginação.

Lembro ao visitante que há postagem minha também em Literatura em vida 2 (link) e em Poema Vivo (link).

domingo, 29 de agosto de 2010

Aniversário do Conto-Gotas

Hoje este espaço está em festa, completando seu primeiro aniversário. Convido você a ler meu primeiro conto postado (aqui) e a comer um pedaço de bolo com o blogue (agradeço ao site "Recados online.com" a imagem).
Nessa "data querida", constato, ainda, que meu empenho ficcional, poético (Poema Vivo) e de meus comentários sobre textos literários (Literatura em vida 2) atingiu seu objetivo, junto a meu público leitor, como se constata nas palavras tão pródigas de Graça Lacerda, em seu blogue ANJO DE PRATA (visite-o por aqui). Agradeço o carinho, oferecendo a ela a amizade e este meu conto comemorativo.

Parábola

Eliane F.C.Lima

De vassoura na mão, começou a limpar aquele galpão enorme, cujo fim nem se via, muito novo ainda, não se lembrava desde quando. E ia varrendo, em todos os lugares, às vezes quase nada, às vezes muito lixo acumulado, que ia empurrando para a frente, crescendo sempre o que sua vassoura tinha de conduzir.
Seu impulso era seguir naquela tarefa. Em algumas ocasiões, queria desistir, quase parava, quase desanimava. Em outras, tão envolvido estava em seu trabalho, que não via o tempo passar. Em poucas, pouquíssimas, na verdade, sentia entusiasmo e alegria por ir adiante.
Mas a empreitada foi se tornando cada vez mais penosa. Agora já tinha enorme dificuldade para tocar em frente sua vassoura e o lixo que levava.
Até que um dia, viu, finalmente, o portão. Não era largo, bem ao contrário. Não condizia bem com a grandeza e altura daquele pavilhão. Quando foi se aproximando, ele se entreabriu sozinho.
O homem se preparou para empurrar o tanto de lixo que trouxera naquele caminhar difícil e poder passar, por fim, para fora.
No entanto parou e voltou-se para trás, imaginando que, pelo tempo que tinha levado, o princípio, lá tão longe, deveria estar sujo de novo. E apertando os olhos já bem cansados e míopes, pensou ouvir, talvez, um ruído de outra vassoura, e ver uma pessoa miudinha – acaso uma criancinha? – varrendo azafamada.

domingo, 22 de agosto de 2010

O descobridor

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Sentou-se no banco vazio do ônibus e viu o pacote embrulhado e amarrado. Olhou em volta e não viu o dono.
Ficou na dúvida, ao saltar, perigos rondando nesse mundo moderno.
Mas levou o pacote para o escritório. Cheio de medo, respirou fundo e abriu: dentro, um caderno de capa dura, verde, devia ser caro. E todo em branco.
Aquela era uma grande novidade em seu dia de náufrago da vida. Acordava pela manhã e lamentava ter acordado, lamento mesmo de estar vivo. Dormir era o único lenitivo daquele vazio em que se debatia agora. Comer, andar, trabalhar, decidir-se a prosseguir, enfim, era como um esforço digno de Ulisses.
Mas fez o que era obrigado a fazer o resto do dia. Porém separou alguns momentos do final para sentar-se, colocar a data do dia e tomar nota de seu achado, meio um aventureiro que lança a bandeira de seu país em terra nova. Mas, quando percebeu, tinha escrito mais, tinha narrado todo o dia, tinha falado de si, de sua angústia, de seu nada.
E, passada a hora de sair, trancou a porta apressado, como alguém que comete um pequeno deslize, quase um pecado. Mas com uma sensação de não sei quê, talvez alívio?
No dia seguinte, ao acordar, lembrou da aventura anterior. Olhando no espelho do banheiro, escova e pasta, ousou sorrir? E foi ao encontro de suas difíceis tarefas... e de seu caderno.
Abriu o armário e olhou para ele com um pré-entusiasmo. Fez tudo que devia, mas, vez ou outra, lançava um olhar de namorado para a porta da estante. E contou no relógio os minutos que faltavam para o encontro.
Afinal, abriu-o, acariciou a página em branco, lançou a data e escreveu.
E não narrava mais sobre si, havia seres que nunca tinha conhecido, histórias que nunca tinha vivido. E foram páginas e páginas devoradas, numa fome de louco. E foi embora numa viagem mística, numa viagem mágica, numa viagem magnética.
Saiu tarde do trabalho, caminhando com as mãos nos bolsos, assobiando uma canção inventada.

Aguardo-o, visitante, em meus blogues Literatura em vida 2 (link) e Poema Vivo (link).

domingo, 15 de agosto de 2010

Momento ímpar

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Conto escrito após a leitura do poema “Encantamento”, de Ju Rigoni, postado no blogue Fundo de mim (leia-o aqui).

A vela estufa o peito, senhora de si. E puxa o barco, alheia a tudo. Em volta, um silêncio de alto mar, de solidão completa. Uma luz extremamente branca acima, ilumina o rosto sentado, olhos voltados para baixo.
Parece mais meditação do que navegar, mais encontro consigo do que paisagem. Passa o vento ou passam os pensamentos? Navega o barco ou a alma? Quem estufa o peito, quem puxa o barco?
Balançando, oscila um sentimento vago e forte, ao mesmo tempo, e que ameaça derramar-se do interior e alagar o barco e fazer soçobrar e afogar o peito.
Ali está um rosto e mais tantos, que vão se duplicando nesse barco. Os olhos dois são agora mil e mais. A luz que ilumina, outrora branca, vai ficando azul e intensamente outra.
No barco, não cabem mais os sentimentos que se petrificam em palavras e afundam no mar branco e rolam, incontroláveis, para fora da mesa.
O barco, embora grávido de poesia, veleja, veloz e sobre-humanamente, inconsciente a dentro.

Estou aguardando você em Literatura em vida 2 (aqui) e Poema Vivo (aqui).













domingo, 8 de agosto de 2010

Social

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Chegada nos sessenta, começou a ter problemas de saúde. Era uma calcificação no ombro, era uma dor na coluna lombar, era fisioterapia na cervical. Fora, é claro, os exames laboratoriais – acorda cedo, faz uma dietinha – e a visita ao dentista: quebra um dente aqui, cárie em outro ali.
Aprendeu termos que nunca tinha ouvido falar, sabia na ponta da língua a causa e a consequência de muitas enfermidades, merecedora já de um diploma de medicina.
Isso sem contar as visitas aos médicos. No livrinho do plano de saúde, várias páginas começaram a ficar usadas, as especialidades sendo assinaladas a lápis. Parecia o diário que tinha na adolescência. Manuseado o tal livro, dava para contar a história da sua vida de então.
Mas o que iria preocupar outra pessoa, para ela não era problema, pelo contrário. As saídas eram uma curtição. Sentava na sala de espera e conversava a mais não poder. Quando era chamada lá para dentro, novas amizades, papo novo.
Tinha dentro da bolsa sempre um papelzinho e caneta providenciais. Anotava o nome de um médico “excelente”, o de um rapaz que fazia palmilhas contra “esporão calcâneo”, competentíssimo, e daí por diante.
Dia sem médico para visitar ou terapia a cumprir era uma solidão!

Espero você em meus outros blogues Literatura em vida 2 (as setas são o "Abre-te, Sésamo": ->) e Poema Vivo (->).

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Caiu na rede... fica imbecil

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Será que a solidão me afetou realmente os miolos? Ainda bem que na Internet ninguém me vê. Nem meus amigos. No chat.
No princípio, sentia-me ridículo e não conseguia falar com ninguém. Não só por não conseguir descobrir como é que se entrava na conversa, tecnicamente – aquilo era conversa? –, como por não saber a quem me dirigir. Cheio de franqueza, dizia minha idade: 58 anos. Ninguém me respondia. Até “Ñ enxe tio eu to oculpada.”, eu li. Assim mesmo, com x. Quando, finalmente, entendi o que ela queria dizer com aquele “oculpada”, quem se sentiu “culpado”, fui eu.
Quando alguém falava comigo, eu demorava tanto escrevendo uma resposta, que vinha outro e me arrebatava a garota. Hoje, ñ escrevo +, teclo, quer dizer, “tcl”.
Nas primeiras vezes, fiquei horrorizado. Lia um monte de besteiras e não conseguia me conformar com aquilo. Saía da “sala” – na rede, é claro – e ia para a sala, ver televisão ou dormir.
Ficava mal-humorado durante muitos dias. Pela montanha de tolices que tinha lido, por ter entrado naquele bate-papo ridículo, por não entender nada do que falavam, não descobrir quem falava com quem, por não fazer parte daquele mundo, enfim, ou por concluir, talvez, que eu não fizesse mais parte deste mundo.
Até que resolvi entrar, dizendo: “Aí, galera, sou Bad Boy 22. Foi o “Abre-te, Sésamo.” Ficou quase impossível atender a todo mundo que me respondeu. Concentrei-me em um nome só, qualquer um, sem procurar escolher se as respostas tinham conteúdo ou não. Afinal, nenhuma tinha mesmo.
Era isso. Descobri a chave. E comecei a falar um monte de besteiras mentirosas. Que era baiano. Mas tinha um ap no RJ, de meu tio carioca. E toca a abreviar tudo, para dar tempo e não perder a interlocutora. Aprendi a fazer leitura dinâmica: pega-se um quê qualquer da fala da outra e responde-se àquilo. Se não fizer sentido, não tem importância. O sentido não faz diferença, o que importa é teclar. Escreve-se uma série de “kkkkkkk” depois e faz de conta que era só uma piada. Hoje sou o garanhão do chat. Quando entro, ganho todas as atenções.
O bom é que eu gargalho sozinho, sentado em minha cadeira, das idiotices que digo ali. Rio dos outros, muito... e de mim. Que garantia eu tenho de que Fofona20 não tem setenta anos?

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sábado, 24 de julho de 2010

Pré-histórico

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

A professora reclamava, as mães dos amiguinhos reclamavam. Sua mãe sempre tinha tentado corrigir aquilo. Em menino, estava sempre de castigo.
Mas nunca adiantou: ele foi até a idade adulta mentindo, como todos diziam. Se estava com alguém, na fila do banco, com os amigos, em qualquer lugar e passava alguém, por exemplo, ele mostrava e dizia:
- Aquele homem ali... – e lá vinha uma história comprida, mas inventada.
Às vezes havia uns lances elaborados e rocambolescos. As pessoas ficavam admiradas. Os desconhecidos acreditavam e ficavam fitando o objeto da história, o tal, com pena, ou revolta, dependia do enredo.

Ele inventava urdiduras até sobre si, visto que fazia uma narrativa em primeira pessoa.
Os amigos, no entanto, foram descobrindo que ele não contava a realidade. Alguns se afastaram dele. Outros faziam questão de não passar por bobos:
- Lá vem esse cara com isso de novo.
Mas a maioria, mesmo sabendo que não era verdade, ouvia e se deliciava. Alguns até apontavam alguém e perguntavam se ele conhecia, só para que inventasse. Ele era capaz de prender a atenção das pessoas por horas. Esses tinham descoberto que o amigo era um ficcionista. Seria um escritor, caso se desse ao trabalho de escrever. Teria ganho muito dinheiro, seguramente. Suas tramas eram de mestre. Mas era um fabulista da oralidade.

domingo, 18 de julho de 2010

Delicadeza e sensibilidade

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)

Sempre fui uma pessoa muito sensível, desde menino.
Ainda novinho, ia de árvore em árvore do enorme quintal de minha casa. Subia e, se achava um ninho com os ovinhos lá dentro, sem a mãe, acreditava que eles estavam abandonados. Pegava e levava para casa, deixando em uma caixinha que eu tinha ali. Sempre me frustrava. Não nascia nada e eles ainda estragavam.
Quando via aquele monte de formigas no chão de terra, andando para lá e para cá, atarantadas, cria eu, morrendo de pena por ver a aflição delas, que estavam sofrendo muito e, desesperado, para acabar com aquilo tudo, arrastava o pé em todas elas.
Foi assim com a história do gatinho. Sujinho e faminto, levei, escondido, para casa. O bichinho miava muito. Na minha inocência de criança, imaginei que ele tinha esquecido como é que parava de miar. Amarrei a boca dele com um pano. E para que ele não tivesse mais frio, guardei em uma caixa de papelão dentro do armário. Passados muitos dias, como tivesse me esquecido, comecei a sentir um cheiro esquisito. O pobrezinho tinha morrido, imagine a minha aflição. Para que minha mãe não descobrisse nada, joguei no lixo bem longe de casa e derramei meu vidro de perfume dentro do armário. Disse que tinha sido um acidente.
Hoje, mesmo adulto, continuo com esse mesmo tipo de sentimento, imaginem. Continuo a salvar os bichinhos que encontro pela rua.